sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A pressa é inimiga da perfeição, diz o ditado

Das grandes agências internacionais, a France Presse parece ser a primeira a perceber os fortes rumores sobre uma atitude do Papa em relação à excomunhão dos bispos da Fraternidade São Pio X, um grupo cismático fundado pelo falecido arcebispo Marcel Lefebvre e que celebra exclusivamente a missa tridentina. Em 1988, Lefebvre e o bispo brasileiro Antonio de Castro Mayer ordenaram, sem autorização do Papa, quatro bispos. O ato dava excomunhão automática, que foi confirmada por João Paulo II no motu proprio Ecclesia Dei.

O texto da France Presse já foi republicado por várias fontes online, como o Último Segundo. Exceto o problema um pouco óbvio de dar como certo algo que ainda não está confirmado (eu sei, o Andrea Tornielli é muito bem informado, mas tem coisas em que é melhor dar uma de São Tomé), a matéria tem outras imprecisões:


O decreto já teria sido assinado pelo Sumo Pontífice, de acordo com o jornal. O texto suprime a excomunhão para os quatro bispos ordenados pelo monsenhor Lefebvre, entre eles seu sucessor Bernard Fellay.
Um detalhe que pode (e certamente vai) passar despercebido pela grande imprensa é que existe uma diferença entre anular uma excomunhão e declarar sua nulidade. Anular significa que houve excomunhão e que agora ela foi retirada. Declarar nulidade significa dizer que a excomunhão, na verdade, nunca ocorreu. E a verdade é que ninguém sabe com certeza se Bento XVI vai anular as excomunhões ou declará-las nulas (se é que vai fazer alguma coisa)


Anular a excomunhão constitui um passo importante para a reconciliação com o movimento tradicionalista e dogmático
Como assim "dogmático"? O que a AFP quis dizer com isso?


que tem 460 padres espalhados por quase 50 países e tem sua maior comunidade na América Latina, em particular na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e República Dominicana.
Eu podia jurar que as maiores comunidades da SSPX estavam na França e nos Estados Unidos. Talvez juntando a América Latina toda o número fique maior, mas se considerarmos países, acho que minha impressão se confirma.

(corrigido em 26/1) A AFP não menciona que há alguns anos os tradicionalistas brasileiros, reunidos em torno de dom Antonio de Castro Mayer, um dos bispos excomungados em 1988, se entenderam com Roma, tornando-se a Administração Apostólica São João Maria Vianney.

Desde o início de seu pontificado em 2005, Bento XVI fez vários gestos de abertura em direção ao movimento católico fundado pelo arcebispo francês, entre eles a introdução em julho de 2007 da missa em latim, uma exigência dos 'lefebvristas'.
Mas de novo? Para informação da AFP, a missa nova, do missal de 1969, também é em latim. O que existe é autorização do Vaticano para cada país celebrar em seu próprio idioma, mas a língua padrão da liturgia católica ainda é o latim. O que a AFP quis dizer é "missa tridentina", rezada segundo o missal de 1962, e que é rezada exclusivamente em latim, com apenas algumas partes em vernáculo.

Além disso, a missa tridentina não foi "introduzida" em 2007. Apenas houve uma permissão universal para sua celebração. Antes disso, dependia de cada bispo permitir ou não a missa tridentina em suas dioceses. Agora, qualquer padre pode rezar segundo o missal de 1962 sem depender de autorização episcopal.


Em junho do ano passado, o Vaticano abriu mão de exigir dos adeptos de Lefebvre, reunidos na Fraternidade de São Pio X, fundada em 1969 em Econe (Suíça) pelo monsenhor Lefebvre, o reconhecimento das disposições do Concílio Vaticano II, celebrado entre 1962 e 1965 e que modernizou a Igreja.
De onde saiu isso? Nunca ouvi nada semelhante, e olha que eu acompanho as notícias sobre a Igreja... se tivesse havido algo semelhante, a SSPX teria sido a primeira a trombetear a notícia por todo canto.

De qualquer modo, aguardemos o que vem por aí. O boato mais forte diz que o anúncio seria feito domingo. Apostas?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Novidade tecnológica no blog

Seguindo sugestão da Julie, adicionei o FeedBurner no blog (primeiro tive que descobrir o que raios era FeedBurner). Agora você pode ser avisado por e-mail quando o blog for atualizado, basta colocar o seu endereço na caixinha que está logo abaixo da imagem de Santa Catarina de Sena. As atualizações estão programadas para chegar à noite.

Com certeza o tal do FeedBurner deve ter muito mais recursos tecnológicos que isso, mas eu sou meio lerdo com essas novidades. Já fiquem contentes de eu ter conseguido colocar a janelinha aí do lado.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Agência Estado canoniza a irmã Lindalva

Hoje vários jornais, inclusive a Gazeta do Povo, deram a notícia de que o Vaticano está para declarar irmã Dulce "venerável". Como por algum motivo não acho a notícia no site da Gazeta, vai o link do Último Segundo mesmo. O texto é igual, exceto por um pequeno pormenor que conta a favor do US (vejam mais abaixo).

A gente começa a ler e pensa "puxa vida, olha só, eles estão se preocupando em descrever direitinho o processo", afinal dizem que a declaração de "venerável" é o penúltimo passo antes da canonização, e que a beatificação é o último passo. Mas da metade pra frente a coisa degringola:


Com o título de venerável, a baiana é reconhecida pelo Vaticano como uma serva de Deus (beata) que teve a vida pautada por realizações em benefício do próximo.
Lá no Último Segundo o camarada que colou esse texto no sistema interno deve entender de religião, porque removeu o (beata) -- justamente a parte problemática, pois, como sabemos, "servo de Deus" é uma coisa, "beato" é outra. Beato é quem foi beatificado.

Mas o pior está por vir:


Como venerável, o Vaticano dá sinais positivos para que ela se torne santa, como aconteceu com a Irmã Lindalva (canonizada em 2007).
Não sei se os parênteses foram obra da Agência Estado ou do padre Manuel, da Arquidiocese de Salvador. De qualquer maneira, Lindalva foi beatificada em 2007, e não canonizada. É o tipo de coisa que devia causar estranhamento no repórter, ou no editor, pois só o Papa canoniza, e em 2007 ele esteve aqui pra canonizar Santo Antônio de Sant'Anna Galvão, e não a irmã Lindalva.

Será demais exigir que os jornalistas saibam que só o Papa pode canonizar?

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

E olhem que a Semana Santa ainda está longe...

... mas o Luís Milman, doutor em Filosofia e professor da UFRGS, já acha que pode falar do que não entende. Tudo bem que ele escreveu um artigo muito legal sobre o Obama hoje na Gazeta do Povo, que no blog dele ficam desmascaradas todas as palhaçadas da mídia sobre a guerra em Gaza, mas a julgar pelo que ele publicou anteontem, devia se limitar à política...

Vamos lá: o texto dele se chama Bento XVI e a Oração pelos Judeus. O tema é a oração da Sexta-Feira Santa pela conversão dos judeus no rito tridentino.

É preciso lembrar que a oração pelos judeus é parte da liturgia da Sexta-Feira Santa há muito tempo, e não foi abolida nem pelo Concílio Vaticano II, nem pela reforma litúrgica de 1969. O que aconteceu foi uma mudança nas palavras da oração.

Até 1959, rezava-se pelos "pérfidos judeus". Vocês sabem que, em português, "pérfido" tem uma conotação negativa, assim como em outras línguas modernas. Mas em 1959 rezava-se apenas em latim, então é necessário que se busque o significado latino da expressão. E, em latim, "pérfido" tem o significado principal de "sem fé" - o que, devemos reconhecer, corresponde à realidade, já que os judeus não reconhecem Cristo como o Messias.

Mas em 1959 João XXIII mudou a oração e retirou o adjetivo. Isso quer dizer que, se o missal tridentino usado atualmente é o de 1962, ele já não traz a expressão. Ou seja, um dos motivos de gritaria simplesmente não existe. Um trecho da oração do missal de 1962 dizia:

[Deus] elimine a cegueira deste povo para que, reconhecida a verdade de sua luz, que é o Cristo, saiam das trevas.
Em 2008, Bento XVI modificou especificamente esta oração pelos judeus, que ficou assim (traduzida em português, porque ela continuará a ser rezada em latim):

Oremus et pro Iudaeis (Rezemos pelos judeus)

Que o Deus nosso Senhor ilumine seus corações para que reconheçam Jesus Cristo, Salvador de todos os homens. Deus onipotente e eterno, vós que quereis que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade, concedei que, entrando a plenitude dos povos em cossa Igreja, todo Israel seja salvo.
Então, nós temos quatro orações pelos judeus. Cuidado pra não se perder:
1. a oração tridentina, pré-1959, que falava dos "pérfidos judeus";
2. a oração tridentina, pós-1959, modificada por João XXIII, que não tem mais o "pérfidos", mas fala da "cegueira";
3. a oração tridentina, modificada por Bento XVI em 2008, a do "todo Israel seja salvo". Lembro que essa é a oração que está valendo para os fiéis adeptos da liturgia tridentina;
4. e, por fim, a oração pelos judeus no rito novo, que diz:

Oremos pelos judeus, aos quais o Senhor Nosso Deus falou em primeiro lugar, a fim de que cresçam na fidelidade de sua aliança e no amor do seu nome. Deus eterno e todo-poderoso, que fizestes vossas promessas a Abraão e seus descendentes, escutai as preces da vossa Igreja. Que o povo da primitiva aliança mereça alcançar a plenitude da vossa redenção. Por Cristo nosso Senhor.
Resolvido esse problema, sigamos em frente. Milman diz com todas as letras que a oração tridentina em vigor atualmente (3) não é antissemita. Ele diz que as orações anteriores (1 e 2) o eram. Não acho que sejam. Antissemitismo é uma discriminação de raça, e não de religião. Mas de qualquer maneira, como essas duas orações já estão fora dos livros, não precisamos discutir aqui sobre elas.

Mas os rabinos não gostaram sequer da oração (3). Sinceramente, aí não é problema nosso. Na verdade, a oração (3) não é muito diferente da oração (4), pois ambas pedem a conversão dos judeus (o que vocês acham que "plenitude da salvação" significa?). Talvez os rabinos não gostem da (4) também.

Milman continua:

É de se questionar: quais foram as razões do Papa Bento XVI - que pertenceu à Juventude Hitlerista - para tê-lo reintroduzido?
Enquanto Ratzinger for vivo, sempre haverá alguém para retomar essa babaquice de Juventude Hitlerista. Precisamos lembrar que a filiação à Hitlerjugend era obrigatória na época em que Ratzinger era adolescente, e que sem ela os meninos tinham problemas? Milman, leia a autobiografia do Ratzinger e você descobrirá que a família do Papa era totalmente antinazista.

E de que "reintrodução" Milman fala? Da oração pelos judeus? Mas sempre houve oração pelos judeus! Milman fala como se a Igreja tivesse deixado de rezar pelos judeus na Sexta-Feira Santa por alguns anos, e então pum!, Bento XVI, o Papa alemão, vem e reintroduz uma oração...

O que Bento XVI realmente fez?
1. permitiu a utilização universal do missal tridentino de 1962. Bom, lá havia uma oração pelos judeus, rezada uma vez por ano. Assim como há diversas outras orações. Não dava para o Papa reintegrar um missal inteiro e dizer "restauramos tudo, menos essa oração pelos judeus. Vai ficar sem nada no lugar".
2. Substituiu a oração que Milman considera antissemita (a 2) por uma que Milman não considera antissemita (a 3)!

A decisão de Bento XVI contraria a orientação conciliar do Vaticano II, segundo a qual a Igreja e todos os católicos devem lutar pela liberdade religiosa e promovê-la, pois a liberdade de religião expressa a liberdade de consciência.
Milman leu (será que leu mesmo?) a Dignitatis Humanae e entendeu errado. Liberdade de consciência significa que ninguém pode ser forçado a aderir a uma religião contra a sua vontade. Liberdade de consciência não significa renunciar à evangelização, ou renunciar à pretensão de ter a plenitude da verdade. Aliás, o Concílio Vaticano II diz, mais de uma vez, que a Igreja é necessária para a salvação.

Sua preocupação com os judeus é intempestiva.
Por quê? Bento XVI não mandou substituir uma oração antissemita por uma oração que não é antissemita? Isso não é bom?

Não me aprofundo no tema doutrinário
Percebe-se.

Não há porque fazer retornar, a um Missal, uma prédiga tópica que pede pela salvação de Israel (sic).
A Igreja pede pela salvação de todo mundo. Inclusive, a oração da Sexta-Feira Santa, além de pedir pelos judeus, pede também por quem não acredita em Cristo, por quem não acredita em Deus... queria que Milman respondesse: é errado rezar pela salvação dos outros? E lembro que não tem nada "retornando" ao Missal como se algum dia não tivesse estado lá: a oração pelos judeus faz parte da liturgia há uns bons séculos, e nunca foi interrompida.

Esse passo do Papa preocupa
Que passo? Substituir uma oração antissemita (na opinião de Milman) por uma oração que não é antissemita (também na opinião de Milman)?

Bento XVI não é antissemita, estou certo disto. Mas a recuperação da Oração pelos Judeus desperta uma discussão que não aproxima judeus e católicos.
Mais uma vez Milman insiste numa "recuperação" que não houve.

Seria bom para todos que Bento XVI fizessse esforços diplomáticos no sentido de conseguir uma reaproximação com interlocutores judeus, sem enfatizar a profissão de fé que julga a fé dos outros. João XXIII certamente teria agido deste modo.
Milman acha que pode adivinhar como João XXIII teria agido... pois bem, a gente sabe como João XXIII efetivamente agiu: deixou no Missal uma oração (antissemita, segundo Milman) que falava da "cegueira" do povo judeu e pedia que Deus "retirasse o véu que cobre seus corações".

Conheço gente que ficará desapontada...

domingo, 4 de janeiro de 2009

O Rodolfo tinha razão...

... quando me aconselhou a não subestimar os meus colegas neste fim de ano. Meus pais assinam a IstoÉ, e só agora eu tive a chance de ver a matéria publicada na edição de 24 de dezembro, sobre o cotidiano de Nossa Senhora.


Eu sinceramente gostaria de saber quem é o editor dessa área onde trabalha o tal João Lóes. Porque, aqui na Gazeta do Povo, onde trabalho, nós, editores, não aceitamos reportagens que tragam uma série de afirmações simplesmente sem fonte alguma! Vejam essa série impressionante:

Sabe-se que ela era uma dona-de-casa judia que morava na vila de Nazaré, na Galiléia, povoado colonizado pelos romanos. Criava galinhas no fundo do quintal e acordava com o barulho delas, ainda de madrugada, para iniciar suas atividades domésticas. Vivia em condições muito simples. Dormia em uma esteira, num chão de terra batida sobre a palha, numa casa que cheirava a óleo queimado, proveniente de uma lamparina que ela mantinha acesa, acomodada em uma cavidade na parede. Vestia o mesmo traje, independentemente da ocasião: uma túnica de linho, com a qual realizava seus afazeres ou saía para alguma atividade, sem esquecer de colocar o véu, em respeito ao marido. Era uma mãe zelosa e dedicada, que sempre tentou manter o filho próximo de si. Durante a infância de Jesus, gostava que o garoto ajudasse o pai, José, na oficina. Caso não houvesse trabalho, ela recrutava a criança para ajudar nas tarefas domésticas, como fazer farinha de cevada, buscar água na fonte e limpar a casa, que só tinha um cômodo.
Apesar de nunca esquecer que estava criando o filho de Deus, o Messias, nascido para salvar os homens, ela não se intimidava em recriminá-lo. E o fez diversas vezes durante toda a sua vida. Ralhava em público com o menino, principalmente depois que ele desenvolveu o hábito de dar umas escapadas para o templo, a partir dos 12 anos. (...) Também há relatos de discussões entre mãe e filho, quando Jesus era jovem e ainda não havia saído em pregação. Num primeiro momento, ele se levantava e saía, deixando a mãe falando sozinha, mas Maria o chamava aos gritos e ele voltava atrás.


Então tá. Quem disse isso? Está escrito onde? De tudo isso aí, a "escapada" (no singular) aos 12 anos é a única afirmação comprovável pelos Evangelhos. Mais tarde, na matéria, o repórter citará os evangelhos apócrifos, mas menciona nominalmente apenas o de Tiago. O problema é que esse apócrifo, como a própria matéria diz, vai apenas até o nascimento de Cristo, ou seja, não poderia ser a fonte de vários dos trechos citados acima. Entendam: boa parte disso tudo pode até ser verdade, mas em jornalismo a gente não tira esse tipo de coisa do nada; precisamos dar a fonte. Há estudos mostrando que os judeus da classe social da Maria dormiam em esteiras no chão? Ótimo, mas então o repórter precisa dizer no mínimo quem fez a pesquisa.

Como em toda matéria que se preze sobre Maria, não podia faltar o lance dos "irmãos de Jesus":

Contrariando o discurso oficial católico, muitos estudiosos garantem que ela teve outros filhos com José
"Muitos estudiosos" é muleta de jornalista incompetente. Que estudiosos? Queremos nomes e instituições a que pertencem, para sabermos se têm alguma representatividade. Além disso, já foi explicado tantas vezes que o vocabulário do idioma de Jesus tinha apenas uma palavra para designar vários membros da família que é preciso ser muito cara-de-pau para continuar trazendo à tona essa questão. Claro que o repórter não foi atrás de nenhum teólogo que pudesse dar a versão ortodoxa para essa questão, não é mesmo? Porque desse jeito não teríamos a polêmica...

Resolução para 2009: esperar até meia-noite de 31 de dezembro para afirmar que essa ou aquela besteira "encerra o ano".

PS: a imagem é o mosaico da Mãe de Deus de Vladimir, na catedral de Santo Isaac, São Petersburgo, Rússia.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Para encerrar o ano, uma besteira monumental

Todo mundo já viu (até no Jornal Nacional!), todo mundo já leu que o Papa teria afirmado, no discurso de Natal à Cúria Romana, que "salvar gay é tão importante quanto salvar florestas", segundo a Reuters. O título caiu no gosto de editores em todo canto, pois foi reproduzido ipsis litteris pelo Estadão, pelo O Globo, pela BBC Brasil e sabe mais por quem...

Já posso até imaginar a Gaystapo (vi essa felicíssima expressão na internet, assim que eu lembrar o autor eu coloco aqui) organizando aquelas demonstrações de intolerância típicas do "pluralismo" atual: todo mundo quer que a Igreja seja tolerante, mas ninguém quer ser tolerante com a Igreja.

O Papa na reunião de ontem. Como é fácil botar palavras na boca do sucessor de Pedro... Foto Max Rossi/Reuters

Pois bem, o discurso do Papa está aqui, em italiano. Essa frase do Papa, segundo a qual "salvar gay é tão importante quanto salvar florestas", simplesmente não existe. Verdade que a Reuters não colocou isso entre aspas, mas o fato é que no discurso não há nada nem remotamente parecido com isso.

O que o Papa realmente disse?

As florestas tropicais merecem, sim, nossa proteção, mas não a merece menos o homem, como criatura.
A Reuters publica corretamente muitas das aspas do Papa, mas escorrega justamente no principal, que escolheu como manchete. Uma escolha absurda, feita apenas para chamar a atenção, sem compromisso nenhum com a verdade. O Papa diz que é importante salvar o homem - todos os homens, não apenas os gays - da autodestruição.

Na verdade, eu percorri o discurso todo e nele não existe uma menção qualquer à homossexualidade. O que o Papa faz é a defesa do casamento. A Reuters escreveu:

Ele afirmou que os comportamentos que vão além das relações heterossexuais são "a destruição do trabalho de Deus".
Mas o discurso afirma

Aqui se trata do fato da fé no Criador e na escuta da linguagem da criação, cujo desprezo seria uma autodestruição do homem e, assim, uma destruição da própria obra divina.
Enfim, a Reuters pega toda uma abordagem sobre o comportamento humano, a vontade de ser autosuficiente, o orgulho que faz o homem prescindir de Deus, e a reduz... a sexo. "Frangamente", como diz a Tamara, lá da comunidade Católicos do Orkut...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Madonna e o cardeal

Conta-nos a Folha Online, citando a agência italiana Ansa, que Madonna chegou ao Chile, e o cardeal Medina protestou, com razão.

Você, católico que acompanhou a eleição de Bento XVI, conhece o cardeal Medina Estevez, talvez só não saiba disso. Foi ele quem, de uma das sacadas da Basílica de São Pedro, pronunciou o Habemus Papam.


Eu me lembro muito bem disso...

Pois então, diz a Folha que Medina é "cardeal emérito". Isso não existe. Ninguém se aposenta do cargo de cardeal, e sim do posto de bispo. Medina é prefeito emérito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos (e não da Congregação para a Doutrina da Fé -- outro erro da Folha Online).

Embora eu tenha me metido numa tremenda discussão com um fake de Zorro no orkut por causa da Madonna, o cardeal tem toda a razão. Esperemos que os chilenos dêem ouvidos a ele. Será que rola o mesmo por aqui?

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O ex-ministro me dá um pretexto para voltar

Credo cruz, quase dois meses sem escrever nada... desculpem, leitores! Ocupado todo mundo é, então não tenho muita desculpa não, exceto talvez a manutenção do Tubo de Ensaio.

Mas o Reinaldo Azevedo, no seu blog, traz a entrevista que sai hoje no Estadão com o ex-ministro da Educação Paulo Renato de Souza. Sem entrar aqui nos méritos do que ele fez ou deixou de fazer durante o mandato do FHC, ele diz aqui uma grande, incrível, espetacular bobagem. A entravista é sobre cotas nas universidades, então coloco só o que interessa (não tenho link para o resto, é só para assinante).

Falando em Reinaldo Azevedo, olha só, o mestre e eu no lançamento do livro dele quarta-feira em Curitiba.

O sr. acha que existem raças entre os homens ou existe apenas a espécie humana, como define a moderna biologia?
Essa questão é muito mais para a antropologia do que para a política. Que todos são seres humanos, é óbvio. Mas também é óbvio que a própria Igreja Católica, há pouco mais de 100 anos, considerava os negros como animais. Isso nós não podemos desconhecer. Essa questão tem de ser tratada do ponto de vista objetivo. E objetivamente, no Brasil, é totalmente descabido nós esquecermos a questão racial, porque somos um país de grande miscigenação. É difícil achar um brasileiro que não tenha um componente de sangue branco ou negro.
Viram o itálico? OK, a entrevista é sobre educação, e não sobre a Igreja, mas será que o repórter não fica com a pulga atrás da orelha quando ouve um negócio desses? Não custa perguntar "mas, ministro, onde é que o senhor viu isso?" A não ser que essa história já tenha virado uma "verdade" goebbeliana (foi mal o neologismo, acho que vocês sabem do que estou falando).

Como comentei no blog do Reinaldo, no orkut eu e meus amigos já desafiamos dezenas de pessoas que passam pela comunidade que modero a trazer um, apenas um documento pontifício que afirmasse a ausência de alma nos negros. Nunca conseguiram. O máximo que trouxeram foram algumas bulas sobre escravidão, e nem lá se dizia o disparate que atribuem à Igreja. Engraçado é que, se os negros não tivessem alma, o que a Igreja estaria fazendo ao pregar para os negros e batizá-los? Ora, só se batiza quem tem alma...

Sabem o que é pior? É que a entrevista sai no jornal e provavelmente bispo nenhum, nem a CNBB, vão mandar uma cartinha de leitor contestando o ministro. Vai passar como verdade.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Aberta a temporada de caça a Paulo VI

A Humanae Vitae, talvez uma das mais famosas e menos compreendidas encíclicas da história da Igreja, fez 40 anos em 25 de julho.

Paulo VI recebe a tiara. Foi o último Papa a ser coroado, o que eu acho uma pena.

Engraçado que demorou para começarem a sair as bobagens sobre ela, mas no sábado o El País (é como o Chaves: tinha que ser) deu sua contribuição ao arsenal. Parece que estava só para assinantes no UOL, então coloco o texto todo aqui.

Papa insiste na proibição de anticoncepcionais para os católicos
Miguel Mora
Em Roma (Itália)

"Os anticoncepcionais que impedem a procriação desvirtuam o sentido último do casamento" - foi o que lembrou ontem o papa Bento 16 em uma mensagem enviada a um congresso sobre o 40º aniversário da Humanae Vitae, encíclica em que Paulo 6º proibiu o uso da pílula para os católicos.
Hm, os anticoncepcionais já estavam proibidos. Basta consultar o Denzinger para ver que a antiga Congregação do Santo Ofício recebia várias perguntas de bispos sobre contracepção e sempre dizia que ela era ilícita. A encíclica colocou o ponto final na questão.
Com pouco sucesso, porque, como assume Bento 16, "o mundo e também muitos fiéis têm dificuldades" para compreender a mensagem da Igreja, "que ilustra e defende a beleza do amor conjugal em sua manifestação natural". Esse amor entre os esposos, explicou o papa, tem um modo próprio de se comunicar: "gerar filhos". E "excluir essa dimensão comunicativa mediante uma ação que tente impedir a procriação significa negar (...) a verdade íntima desse amor".

Bento 16 admite, porém, que no "caminho do casal podem ocorrer circunstâncias graves que tornem prudente distanciar os nascimentos de filhos ou mesmo suspendê-los". Assim, salienta o papa, "o conhecimento dos ritmos naturais da fertilidade da mulher se transforma em fato importante para a vida dos cônjuges". Em outras palavras, o único anticoncepcional autorizado pela Igreja é o popularmente conhecido como "folhinha", que o papa define, de maneira muito mais culta, como "métodos de observação".
Deus do céu. O El País e o tradutor enlouqueceram. "Folhinha" não era o nome do suplemento infantil da Folha de S.Paulo? O nome popular disso que o tradutor chamou de "folhinha" é tabelinha!

Além do mais, ela não é o único método natural tolerado pela Igreja; existem vários outros, baseados em muco cervical, temperatura...
De cada cem mulheres que o utilizam, entre 14 e 24 ficam grávidas.
Tipo, é chutômetro ou tem algum estudo a respeito?
"É verdade", reflete Bento 16, "que a solução técnica aparece muitas vezes como a mais fácil também nas grandes questões humanas, mas na realidade esconde a questão de fundo, que tem a ver com o sentido da sexualidade humana e com a paternidade responsável, para que seu exercício possa ser a expressão do amor pessoal". E conclui: "A técnica não pode substituir o amadurecimento da liberdade, quando está em jogo o amor". Para terminar, o papa exorta os sacerdotes a pregar para os casais uma mensagem "que os oriente a entender com o coração o maravilhoso projeto que Deus inscreveu no corpo humano".
Pelo menos dessa vez os manés do El País colocaram extensas citações do Papa, o que nos dá algo de bom para ler, apesar das palhaçadas mais acima.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O lado falsíssimo do Veríssimo

E então, gente, todo mundo lendo o Tubo de Ensaio?

Outro dia, por ocasião da máquina do fim do mundo (aquele acelerador de partículas gigante), o Veríssimo escreveu um texto evocando Santo Agostinho e a curiosidade vã do homem. Deixei passar, pois não sei exatamente o que o santo de coração inquieto disse ou deixou de dizer. Mas hoje, bom, abro a Gazeta e vejo o seguinte, saído da pena do criador do Analista de Bagé:
para que os cristãos que lucrassem com juros não fossem condenados à danação eterna, inventou-se o Purgatório, de onde os pecadores saem sanados e recuperados para o céu.
Se o Veríssimo tivesse consultado a Enciclopédia Católica teria visto que, embora a doutrina sobre o Purgatório tenha se consolidado definitivamente no Concílio de Florença, a crença já era muito mais antiga, endossada pelos Padres da Igreja. Afinal, para que rezar pelos mortos se não houvesse mortos que precisassem das orações? Ora, os que estão no céu não precisam das nossas orações; os que estão no inferno, bom, não há oração que os tire de lá; então deveria haver mortos numa etapa de purificação para a qual as nossas orações seriam de proveito. Lógico, não?

Mas, claro, em vez de pesquisar é muito mais fácil acreditar na lenga-lenga que a gente leu em algum site protestante ou ateísta...

Nunca é demais uma chance de voltar à Divina Comédia. Aqui, no Purgatório, Dante conversa com o Papa Adriano V, colocado entre os avarentos.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Inédito: aprenda a interpretar algo literalmente, mas como alegoria

Sim, a Reuters conseguiu o feito.

Vaticano aceita evolução, mas não se desculpa com Darwin

A certa altura do texto, vem o malabarismo interpretativo:
O criacionismo é a crença de que Deus teria criado o mundo em seis dias, como é descrito na Bíblia. A Igreja Católica interpreta a acepção do Genesis literalmente, dizendo que ela é uma alegoria para a maneira na qual Deus criou o mundo.
Como é possível que algo seja interpretado literalmente, mas como alegoria? Se a interpretação é literal, então é literal; se é alegórica, então é alegórica, ora bolas...

Editado quarta-feira, 17: A Folha mudou o texto, mas não deu um "Erramos", como seria esperado. Agora está assim:
O criacionismo é a crença de que Deus teria criado o mundo em seis dias, como é descrito na Bíblia. A Igreja Católica interpreta a acepção do Genesis como uma alegoria para a maneira na qual Deus criou o mundo.
OK, ponto para eles por consertar, mas zero por não fazer o conserto como uma errata.

sábado, 13 de setembro de 2008

Não é para deixar de ser doador de órgãos, gente!

Como vocês sabem, o Tubo de Ensaio entrou no ar semana passada e tem exigido um bom tempo. Isso me impediu de ver essa barbaridade cometida pela Ansa e passada adiante pelo Estadão:

Papa Bento XVI era doador de órgãos quando cardeal

O problema está na "linha fina":

Posição contraria declaração que 'morte cerebral' não pode mais ser parâmetro para definir o fim de uma vida
Na boa: o sujeito que escreveu isso tinha que estar muito, mas muito chapado. Ou ser muito, mas muito burro.

Primeiro, porque não houve declaração nenhuma, houve foi um artigo no jornal do Vaticano.

Segundo, porque o artigo não dizia que a "morte cerebral" não podia ser parâmetro. O que o artigo pede é que sejam reabertas as discussões para se saber quando exatamente ocorre a morte encefálica (não existe "morte cerebral" como terminologia médica).

Terceiro, porque ser doador de órgãos não é incompatível com coisa nenhuma. Nem com a doutrina católica, nem com o artigo da Lucetta Scaraffia. Se a pessoa está efetivamente morta, a doação de órgãos é altamente louvável. O problema que foi trazido à tona pelo L'Osservatore é o seguinte: por causa de uma aplicação equivocada do critério de morte cerebral, tem gente morrendo sem estar morta, digamos assim. Mais detalhes no Tubo de Ensaio.

Sério, difícil de acreditar que tenham cometido tamanha asneira. A Ansa está definitivamente caindo no meu conceito. E pensar que cheguei a mandar currículo pra eles quando morava em São Paulo...

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Tradutores traidores

Os italianos é que sabem das coisas: traduttore, tradittore, dizem. Foi bem o que aconteceu com um texto da Ansa reproduzido pelo Estadão, a propósito da campanha que a Igreja no México lançou contra o aborto (obrigado ao Fernando Tavolaro pelo alerta).

A certa altura, o texto afirma:
"A Igreja sempre seguirá pregando a defesa da vida desde sua concepção. Embora permita a convivência de pessoas do mesmo sexo, a Igreja continuará defendendo que o matrimônio seja entre um homem e uma mulher", comentou.
Opa! Como assim, a Igreja permite a convivência entre pessoas do mesmo sexo? O padre Demétrio Gomes foi procurar o original em espanhol e achou o seguinte:
La Iglesia siempre seguirá pregonando la defensa de la vida desde su concepción. Igualmente, aunque se permita la convivencia de gentes del mismo sexo, la Iglesia seguirá defendiendo que el matrimonio es entre hombre y mujer.
"Aunque se permita" significa "ainda que se permita". Quem permite? Não a Igreja, e sim o Estado, a Justiça, um terceiro qualquer. Ou seja, ainda que as leis civis permitam a união homossexual, a Igreja seguirá afirmando que o matrimônio existe só entre homem e mulher.

O Estadão pode argumentar que a culpa não foi deles, pois a tradução errada veio da própria Ansa.

Agora, a pergunta. Ninguém lê uma barbaridade dessa e acha esquisito? Minha nossa, editor não serve só para achar erro de gramática, ortografia e pontuação; para isso basta um revisor bem qualificado. Editor também serve para apontar incoerências, pedir ao repórter para verificar coisas que estão faltando, ou verificar informações que não batem. E, convenhamos, um cardeal dizer que a Igreja aceita a convivência entre homossexuais não bate. Falta desconfiômetro nas redações.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Novo blog

Aproveito para avisar a todos que estou com um novo blog, hospedado no portal da Gazeta do Povo, jornal onde trabalho. O Tubo de Ensaio tem como objetivo discutir a ligação entre ciência e religião -- como vocês podem ver, um tema bem polêmico! Espero as visitas e os comentários de todos por lá!

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Mais uma da série "o Vaticano mudou isso, o Vaticano mudou aquilo..."

Bom, parece que já está havendo nova comoção global sobre um artigo que saiu no L'Osservatore de hoje sobre os critérios para se determinar a morte. Dei uma passeada pelos principais sites de notícia brasileiros e recolhi as seguintes manchetes:

Folha Online: Jornal do Vaticano diz que vida não acaba com morte cerebral

G1, igualzinho, pois a fonte também é a BBC: Jornal do Vaticano diz que vida não acaba com morte cerebral

No Terra, o texto é o mesmo, mas como eles sempre fazem questão de piorar as coisas, usaram um título horroroso: Vaticano diz que vida não acaba com morte cerebral

Curiosamente, no iG não tem nada.

Agora vejamos o que disse o chefe da Sala de Imprensa da Santa Sé:

(...) o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi, disse que o texto publicado pelo jornal vaticano "é um interessante artigo assinado pela renomada senhora Lucetta Scaraffia, mas não pode ser considerado como uma posição do magistério da Igreja".

Pe. Lombardi recorda que se trata de "uma contribuição para a discussão e o aprofundamento", mas somente uma contribuição, ou seja,
não é uma posição da Doutrina Católica ou de qualquer organismo vaticano.

O diretor da Sala de Imprensa explica ainda que se trata de
um artigo, e não de um editorial do "L'Osservatore Romano", pois os editoriais podem ser atribuídos somente ao diretor do jornal, neste caso, a Gian Maria Vian.
Os negritos são meus. Comparem o que o padre Lombardi disse com o título do Terra. Agora é só esperar para ver quais dos jornalões brasileiros vão cair nessa.

domingo, 31 de agosto de 2008

Atendendo a pedidos...

... foi mal, gente, mas é que em época de Jogos Olímpicos eu realmente paraliso a minha vida para ficar na frente da televisão.

Como vocês sabem, o STF está promovendo audiências para debater o aborto dos anencéfalos. Até o momento, eu tinha visto era muita crítica à Igreja, mas nunca informação falsa. Lembrem-se de que o objetivo do blog não é rebater as críticas à Igreja, mas sim as bobagens que se escrevem sobre ela. Para rebater críticas temos blogs excelentes como o do Jorge Ferraz, o do Fernando Tavolaro e o do Wagner Moura, que não é o capitão Nascimento mas senta o dedo no teclado com a mesma objetividade.

Pois bem, mas hoje a Cristina me passa o link de um artigo da Ruth de Aquino na Época. O pretexto é o aborto de anencéfalos, mas o objetivo é dar um pau generalizado na Igreja. Vejam alguns pedacinhos:

O aborto de fetos anencéfalos é permitido em 41 países, entre eles o Irã. No Brasil, ainda não, por ser pecado.
Na verdade, dona Ruth, o aborto de anencéfalos é proibido no Brasil não por ser pecado, mas por ser... aborto. Caso a senhora não saiba, aborto é crime no Brasil em todos os casos.

Se algo no Brasil fosse crime pelo simples fato de ser pecado, então não precisaríamos de Código Penal. O Catecismo já bastaria.

"Delegado, trouxemos o elemento aqui por violação do 2.253"
"Que 2.253?"
"Ponto 2.253 do Catecismo, doutor".

Está provado que a anencefalia é letal em 100% dos casos.
Olha, até onde eu sei, tirando dois casos no Antigo Testamento e talvez a Virgem Maria (não há definição sobre isso), a vida é letal em 100% dos casos.

O dogma rejeita argumentos científicos ou de liberdade individual.
Como "rejeita argumentos científicos"? Se a argumentação que vem sendo usada no STF é 100% científica e jurídica, e 0% religiosa? Mais uma prova de que quem pretende transformar o assunto em uma questão religiosa são justamente os não-religiosos.

Aí dona Ruth muda de assunto para comentar a mobilização contra a Playboy da Carol Castro.

Para os adultos que compram a revista, a nudez comercial e escancarada não é profana.
Acho que dona Ruth queria dizer "blasfema" em vez de "profana", pois um dos significados de "profano" é tudo aquilo que não é sacro. Música profana não necessariamente significa música que desrespeita a religião.

O segundo engano de dona Ruth é ignorar que certas coisas são o que são independentemente do que as pessoas acham ou deixam de achar. Blasfêmia é blasfêmia ainda que o mundo inteiro ache que não tem nada de mais.

É como se, ao discordar da Igreja, você fosse amaldiçoado, excomungado e jogado
à fogueira.
Excomungado é uma hipótese bem provável, já que especialmente no caso do aborto as excomunhões são automáticas, não precisam nem de confirmação da Sé Apostólica.

Engraçado a dona Ruth apontar uma suposta "intolerância da Igreja" quando a gente poderia escrever assim: "É como se, ao discordar do pensamento relativista atual, você fosse amaldiçoado, execrado e jogado à fogueira", pois é isso mesmo que a sociedade atual faz com quem se atreve a defender a vida, a visão tradicional de família... acaba rotulado como "fundamentalista", "retrógrado", "medieval", tem sua imagem destruída em uma sociedade onde imagem é tudo.

Quando a religião se impõe ao corpo de leis de um Estado
laico
Outro engano de dona Ruth. Quem disse que a religião está se impondo? Ao que parece, está acontecendo justamente o contrário...

Quando o lobby GLBT (um dia eles ainda vão se apropriar de todas as letras do alfabeto) faz pressão para o Congresso ou o STF reconhecerem a sua visão de "família", ninguém se atreve a dizer "quando o homossexualismo se impõe ao corpo de leis de um Estado...". Mas basta a Igreja, que é parte importante da sociedade, tentar defender seu ponto de vista que vemos frases como essas, da dona Ruth.

Ah, ela quer saber como anda o ibope do Temporão no céu. Anda baixo, sim. Como o seu, dona Ruth.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Não dá pra ser indulgente com isso

O David Redmerski me mandou no começo da semana o PDF da matéria da Veja desta semana sobre as finanças do Vaticano. Estava indo tudo muito bem até mudar de página. Aí lemos a seguinte aberração:
A venda pela Igreja Católica de cartas de indulgência, que absolviam os pecados do comprador, esteve no centro da controvérsia que levou à Reforma Protestante


Gravurinha de Cranach, o Velho, com o Papa vendendo indulgências. Já naquela época eles não sabiam o que escreviam, nem o que desenhavam.

Quantas, Senhor, quantas vezes terei de explicar aos meus colegas que indulgência não é o perdão dos pecados? Para um católico, o perdão dos pecados só se consegue com a confissão. Indulgência é outra coisa: é a remissão da pena temporal devida pelos pecados já perdoados -- a confissão sacramental apaga a culpa, o que já é suficiente para recuperar o estado de graça, mas a pena devida permanece. Ou ela é paga aqui, com obras de caridade e penitência; ou é paga no Purgatório (com juros e correção monetária); ou é cancelada pelas indulgências. Acontece que, na época da construção das grandes catedrais, a contribuição financeira também era obra recompensada com indulgência, o que levou à criação dessa verdadeira lenda urbana.

Ah, eu mencionei que para conseguir a indulgência é preciso ter se confessado antes?

quinta-feira, 31 de julho de 2008

É muito fácil ser desmentido pelos números...

... mas isso só ocorre quando o jornalista tem algum tipo de compromisso com a verdade.

Genésio Boff exercendo seu lado mãe Dinah:

Igreja Católica sofrerá "grande crise interna", afirma Leonardo Boff

A matéria toda é uma grande babaquice, como aliás costuma ser quando a fonte é um dos maiores hereges do planeta. Mas chamo a atenção para o seguinte:
"O crescimento zero da Igreja Católica no planeta" é outro fator que atiçará sua crise interna, vaticinou Boff.
O repórter da France Presse podia muito bem ter lembrado na matéria que o crescimento da Igreja Católica não tem sido "zero". OK, pode não ter subido estratosfericamente, mas qualquer matemático pode explicar o motivo: quem já é muito grande não tem mais como se expandir a grandes taxas, ao contrário dessas igrejolas que conseguem, sei lá, 10 mil fiéis a mais e isso já é um aumento de 200%. No caso de uma religião de 1,1 bilhão de fiéis, a não ser que haja conversões em massa (por exemplo se todos os anglicanos se revoltassem com a fúria ordenatória de Canterbury e virassem católicos), as taxas de crescimento serão baixas, mas não "zero" como gostaria o diaBoff.

Aliás, vocês repararam que o diaBoff foi ver o Lugo, na verdade, para pedir emprego?

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Mais uma vez os padres-candidatos

E o Correio Braziliense repete o mesmo erro destacado aqui anteriormente.

Padres estão em busca de votos no entorno do DF

A matéria recorda o que a Igreja diz: que o Direito Canônico proíbe a vinculação de padres a partidos políticos. Mas o próprio assessor de imprensa da CNBB, padre Geraldo (que, diga-se de passagem, teve uma atuação lamentável naquele episódio do DVD da Campanha da Fraternidade desse ano), já admite que "com jeitinho vai". Aí eles entrevistam dois padres-candidatos, mas nada de entrevistarem o bispo deles (seria o arcebispo de Brasília) para saber se ele deu permissão (contrariando o Direito Canônico) ou se os padres foram desobedientes mesmo.

Lembremo-nos de que, quando o Fernando Lugo quis ser presidente do Paraguai, o Vaticano suspendeu o bispo. A pergunta que os jornais brasileiros não fazem é "por que isso não acontece aqui também?" Afinal, temos ou padres desobedientes ou bispos desobedientes. Ou as duas coisas, infelizmente.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Com vocês, o jornalista-adivinhador

A notícia que saiu hoje em vários lugares não tem nada de errado, digamos. Quer dizer, tem: chamar esse povo de "católicos".

Católicos pedem ao Papa liberação de contraceptivos

A matéria é cheia de aberrações, mas promovidas não pelo repórter, e sim pelos tais "católicos" signatários da carta. Mas, lá no fim, vejo, com surpresa:
O correspondente da BBC em Roma, David Willey, afirmou que é muito provável
que Bento 16 preste atenção no apelo feito pela ala liberal para mudar a
doutrina da Igreja.
Agora repórter virou palpiteiro? E ainda pra dar palpite totalmente fora do alvo como esse? Quer dizer que o jornalista acha "muito provável" que o Papa, que ainda por cima é ninguém menos que Joseph Ratzinger, vá dar ouvidos a esse povo?

Todos juntos cantando esse sensacional samba de Noel Rosa:

Quem é você, que não sabe o que diz?
Meu Deus do céu, que palpite infeliz...

Claro, a não ser que "prestar atenção" signifique que o anúncio de meia página dessa gente no Corriere esteja tão chamativo que o Papa, na sua leitura matinal de jornais, olhe e pense "que coisa colorida, vou ver o que é isso"...

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Jesus disse que não dava pra servir a dois senhores

Saiu essa semana na Folha Online:

Padres se candidatam a prefeito e enfrentam restrições da Igreja

Bom, é o tipo da coisa que não me surpreende. Nem o fato de ver um padre-candidato petista e outro do PSOL, partidos socialistas. Infelizmente a Teologia da Libertação contaminou tanto a Igreja no Brasil que é até esperado que um padre que dá mais valor ao Paço Municipal que à igreja paroquial seja mesmo de alguma dessas quadrilhas como o PT.

Mas, se eu fosse o editor que estivesse olhando a reportagem, perguntaria ao repórter se ele tentou falar com os bispos das dioceses onde os candidatos atuam, para saber o que eles pensam. Vocês repararam que não tem a opinião de nenhum dos bispos responsáveis lá? O único "dom" na matéria, Hugo Cavalcante, é assessor da CNBB e sequer é bispo (mas o "dom" não foi erro da Agência Folha não, pois ele é monge beneditino).

Entrevistar os bispos seria não apenas necessário (dentro de uma ótica jornalística), mas também útil por algumas razões. Primeiro, porque a matéria dá a impressão de que está tudo bem com os padres-candidatos, que teriam o OK do bispo para uma situação objetivamente irregular, segundo o Código de Direito Canônico -- será que é mesmo assim? Segundo, que caso os bispos achassem que não tem problema nenhum, precisariam, sim, ser colocados contra a parede: como é que eles deixam rolar solto esse desrespeito à lei canônica?

quinta-feira, 17 de julho de 2008

É, o feeling não engana

Obrigado ao Tavolaro pela dica!

CBCP hasn’t ok’d condom use for HIV/AIDS patients

Resumo: a Conferência Episcopal Filipina não aprovou coisíssima nenhuma, e aproveita para dar um pau nos veículos de comunicação que distorcem o que a Igreja diz para fazer a coisa se adequar à agenda da mídia (no caso, a agenda pró-camisinha).

A informação dos bispos filipinos já é suficiente para mim, mas eu ainda fico curioso para saber o que o porta-voz da conferência episcopal teria dito, para permitir esse tipo de distorção por parte do repórter da EFE.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Será mesmo verdade?

Vindo da Efe, eu não tenho certeza de nada.

Igreja filipina libera preservativos para portadores do HIV

A informação é atribuída a um porta-voz da conferência episcopal filipina. Mas então por que não há nada sobre o assunto na seção de notícias do site oficial da conferência?

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Minha nossa, a semana ainda está rendendo!

Assim como demorei um pouco para comentar o texto da Veja, também já tinha visto um artigo do Le Monde republicado pela Falh... oops, Folha de S.Paulo. Comento agora. Também é só para assinantes, eu recebi por e-mail. Segura que é meio grande.
Bento 16 resgata tradicionalismo

Vinte anos após excomunhão de bispo anti-reforma, liturgia conservadora volta a dominar Santa Sé

Papa alemão apóia retorno à tradição como resistência à secularização e ressuscita o modelo de uma Igreja Católica mais autoritária

HENRI TINCQ
DO LE MONDE

Vinte anos atrás, em 30 de junho de 1988, o bispo francês Marcel Lefebvre desafiou a autoridade do papa João Paulo 2º. Em seu seminário de Ecône, na Suíça, reduto do integrismo católico, consagrou quatro bispos para garantir a continuidade da tradição contra o concílio Vaticano 2º, que chamava abertamente de herético.
Anos de discussões com a Cúria romana (sobretudo com Josef Ratzinger) foram jogados por terra. Os fiéis se ajoelhavam, beijavam seus anéis. Ao mesmo tempo, um decreto fulminante de Roma excomungava Lefebvre (morto em 1991) e aqueles novos bispos, que passaram a ser cismáticos (frutos de um cisma).
Tem um erro aí. O Papa não excomungou ninguém. Só deixou claro que, por causa das ordenações sem mandato papal, Lefebvre, o brasileiro dom Antônio de Castro Mayer e os quatro bispos ordenados (Fellay, Williamson, de Mallerais e um outro cujo nome não me vem à mente agora) já estavam automaticamente excomungados. O que o Papa fez foi simplesmente deixar clara a situação.
Duas décadas mais tarde e apesar dos fracassos sucessivos das tentativas de reconciliação empreendidas por João Paulo 2º e, sobretudo, por Bento 16, o tradicionalismo, se não ganhou novos textos, conquistou mais espaço nas cabeças.
Enganaram-se aqueles -e eram muitos, na época- que interpretaram aquele episódio dos clérigos de Ecône, 20 anos atrás, como expressão de um folclore superado, destinado à lata de lixo da história, como nostalgia beata do incenso, do hábito e da missa em latim.
Os tradicionalistas continuam presentes. Majoritariamente francês em sua origem -devido à nacionalidade de Lefebvre e às reações francesas contra a liturgia moderna-, o fenômeno ganhou mundo.
A fronteira está cada vez mais porosa, com manifestações de fé e devoção encorajadas por Bento 16, por um clero jovem e por comunidades novas que defendem o retorno à tradição como modo de resistência à secularização.
Seminários da Fraternidade Santa Pio 10, núcleo irredutível do cisma, pipocaram na Alemanha, na Austrália, nos Estados Unidos (no Minnesota) e na América Latina. As gerações de sacerdotes (quase 500) que saem deles e de fiéis (600 mil, segundo fonte do Vaticano) herdeiros dessa dissidência vêm se renovando e já se instalaram em mais de 30 países.
Atenção, revisão! "Santa Pio X"? De qualquer modo ainda é melhor que a "Fraternidade do Santo Pio" que eu li uma vez.

Hã? Eu?

Antiecumenismo
Tipicamente europeu, esse modelo de igreja autoritária, antiecumênica e antimoderna, dominada pela figura do santo padre encarregado do sagrado, foi exportado. Para os tradicionalistas, ele é o avalista dessa parte de mistério, de emoção e de beleza que é própria de toda tradição e que a missa moderna teria sacrificado.
Como assim anti-ecumênica? Ecumenismo é o diálogo com o objetivo de trazer de volta os protestantes e ortodoxos à Igreja Católica. Garanto que com isso Lefebvre e o povo lá da SSPX concorda. O problema é que uns porra-loucas ligados à maldita TL começaram a chamar de "ecumenismo" um tanto-faz doutrinal que consistia em dizer que tudo leva a Deus, que não importa no que você acredita... e, por incrível que pareça, os rad-trads caíram nessa lenga-lenga, apesar de tudo o que dizem os documentos do Vaticano sobre o assunto.
Num mundo em explosão, o latim reencontrou o lugar de língua universal, e as concessões feitas às tradições culturais na Índia ou África empurrariam em direção à tradição os fiéis ligados a uma liturgia e um catecismo únicos.
Os tradicionalistas encontraram um aliado no papa alemão. Os fiéis se espantam com as audácias cometidas por Bento 16 em matéria litúrgica, na contracorrente de toda uma evolução registrada desde o Vaticano 2º. O mestre de cerimonial de João Paulo 2º foi substituído.
Bento 16 reinstaurou o trono de cor púrpura, bordejado de ouro, dos papas anteriores ao concílio, renunciou ao bastão pastoral de seus predecessores, símbolo de uma Igreja mais humilde, e trouxe de volta a férula em formato de cruz grega usada pelo papa mais reacionário do século 19 (Pio 9).
Alguém pode me explicar o que faz de Pio IX um "reacionário"? E por que a cruz pastoral de Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II representava "uma Igreja mais humilde"?
Bento 16 restaurou o costume da distribuição da hóstia de joelhos e pela boca, destinada a tornar-se a prática habitual das celebrações pontificais, declarou no LOsservatore Romano seu chefe de cerimonial, monsenhor Guido Marini.
Eu devo estar pirando. Eu podia garantir que a comunhão de joelhos e na boca já era prática habitual das celebrações pontificais mesmo na época de João Paulo II...
A França corre o risco de ficar estarrecida quando Bento 16 visitar o país, em setembro.
Um ano mais tarde, o decreto papal de julho de 2007 liberalizando o rito antigo em latim certamente não provocou manifestações acaloradas. Na França, esse chamado em favor da missa antiga teria sido ouvido por apenas 0,1% dos fiéis.
O número de paróquias em que ela é celebrada há um ano não passa de 40, somada às 132 que já a propunham.
Mas os tradicionalistas não desistiram de sua guerra insidiosa contra os bispos, os padres e a Cúria modernistas. Eles rejeitaram o protocolo de acordo proposto por Roma para solucionar o cisma, que lhes exigia apenas que se comprometessem a respeitar a autoridade e a pessoa do papa.
Vítima de um jogo interminável de disputas, Bento se viu pressionado a anular as excomunhões de junho de 1988 e atribuir aos padres tradicionalistas um estatuto sob medida de prelado nullius, que lhes garantiria a vantagem dupla de serem reconhecidos por Roma e se manterem independentes dos bispos.
Se viu "pressionado" a fazer o que? Bom, em primeiro lugar, as excomunhões nunca foram anuladas. É verdade que a SSPX pede a anulação, mas do jeito que o texto foi escrito (ou traduzido), parece que a anulação já ocorreu.
Seria realmente esse o papa que nunca teria conseguido libertar-se de seu modelo bávaro, cujo cotidiano girava em torno da missa, da família, do Angelus dos campos e da música das cidades?
É duro imaginar que esse filósofo que dialogou com figuras do pensamento laico (Florès dArçais na Itália, Habermas na Alemanha), que orou numa mesquita (em Istambul), visitou sinagogas, escreveu encíclicas em tom moderno sobre o amor, possa amanhã abrir a porta aos cismáticos de 1988.
E por que é duro imaginar isso? A Igreja abre as portas a todos os que desejam fazer parte dela. Abre as portas aos anglicanos insatisfeitos com os rumos que Canterbury vem tomando. E abre as portas inclusive os cismáticos da SSPX. Abriria as portas até mesmo aos teólogos da libertação, se eles não odiassem tanto a Igreja e o Papa.
Em todas as religiões, a liturgia é a expressão de uma fé. Ela não pode ser dissociada da doutrina. Acontece que a direção foi determinada há mais de 40 anos, no concílio Vaticano 2º, mantido por Paulo 6º e João Paulo 2º. Hoje, reina em Roma um neoconservadorismo incentivado não tanto pelo papa quanto por grupos que nunca renunciaram à igreja autoritária do passado. A reintegração dos cismáticos corre o risco de ser efetuada ao preço de uma erosão das conquistas dos últimos 40 anos. Seria o triunfo póstumo de Lefebvre.
Engraçado -- se a direção foi determinada pelo Vaticano II, maravilha! Pois o Vaticano II pedia órgão e canto gregoriano; pedia a manutenção do latim, pelo menos no cânon. Não pedia guitarra, bateção de palma e leigos de jaleco distribuindo comunhão.

Mais uma prova de que jornalistas mal-informados acabam atribuindo ao Concílio coisas que nunca passaram pela cabeça dos padres conciliares.

Pobre João XXIII...

... quantas bobagens as pessoas defendem, usando o nome do Papa que convocou o Vaticano II.

Lembram do caderno especial do Jornal do Commercio, no Recife? O Jorge Ferraz está colocando, aos poucos, os textos. Um pior que o outro.

A certa altura, diz o jornal:
[O] papa João XXIII ensinou que era preciso “abrir as janelas do Vaticano para que os ventos da história soprassem a poeira que entulha o trono de Pedro”
Assim como o Jorge, eu também já tinha ouvido essa metáfora das janelas. Mas nunca para "soprar poeira entulhada no trono de Pedro". Claro que o jornal não diz nem quando, nem onde o Papa teria dito isso. Então eu me lancei numa procura online e offline pela citação correta. É certo que no discurso de abertura do Concílio não está. Nem nos documentos que estabelecem a convocação e a data de início do Concílio. Só resta a homilia de 25 de janeiro de 1959, em que o Papa falou do Concílio pela primeira vez. Mas essa homilia eu não consigo achar em lugar nenhum.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Duas boas almas

O Roberto Zanin e o Fernando Tavolaro me mandaram a íntegra da matéria da Veja sobre os acessórios do Papa. Nem adianta botar link, é reservada para assinantes. Por causa disso, vai a matéria toda copiada e colada aqui.

Bento XVI com seu camauro

A mensagem das roupas

Bento XVI não veste Prada, mas Cristo. Bem de acordo com a
linha que adota, seu vestuário é um resgate da tradição católica

Vanessa Vieira

O papa Bento XVI está longe de ter o carisma de seu antecessor no trono de Pedro, mas sobressai pelo guarda-roupa. Os chapéus, gorros e sapatos vermelhos, assim como os óculos escuros, chegaram a lhe valer um posto na galeria dos homens "que melhor sabem combinar os acessórios no vestuário", numa tirada maldosa da revista americana Esquire. Espalhou-se também o boato de que os rubros sapatos papais seriam da badalada marca italiana Prada, o que foi desmentido pelo Vaticano. Os acessórios usados pelo papa, na verdade, não guardam nenhuma relação com a moda nem representam uma opção estética. Eles estão carregados de significado religioso. São peças adotadas por pontífices do passado, resgatadas por Bento XVI como uma forma de recuperar a tradição da Igreja e, desse modo, reconectar a instituição à sua história milenar. "Mais do que qualquer outro papa da história recente, ele tem um profundo interesse nos trajes litúrgicos e não-litúrgicos que haviam sido abandonados", disse a VEJA o padre Keith Pecklers, professor de história litúrgica da Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. "Isso sugere seu desejo de retomar elementos que ele acredita terem sido perdidos depois das reformas do Concílio Vaticano II."

Originalmente, os sapatos papais eram feitos de couro tingido de vermelho e decorados com uma cruz dourada, que devia ser beijada por aqueles que se dirigiam ao pontífice. Paulo VI, papa entre 1963 e 1978, eliminou a cruz dos calçados e interrompeu o costume do beijo. João Paulo I ainda usou os sapatos vermelhos, bem como João Paulo II no começo de seu pontificado. Logo depois, entretanto, o papa polonês os substituiu por sapatos marrons comuns. O vermelho dos sapatos representa o sangue do martírio de Cristo. O camauro e a mozeta, recuperados também pelo alemão, são acessórios que estavam em desuso desde o pontificado de João XXIII, encerrado em 1963. O camauro, um gorro de veludo vermelho enfeitado com pele de arminho, remonta ao século XIII. Aparece em pinturas que retratam pontífices como Inocêncio VII, Julio II, Bento XIV e Clemente XIII. O vermelho, nesse caso, explica-se pelo fato de ter sido, no passado, a cor distintiva dos papas na hierarquia da Igreja. Isso mudou no século XVI, quando Pio V instituiu o branco como a cor pontifícia. A mozeta é uma capa curta que cobre os ombros, parte das costas e dos braços. Uma das referências mais antigas do uso dessa peça vem de um afresco de Melozzo da Forlì, de 1477, que retrata o papa Sisto IV. A mozeta pode ser vermelha ou branca – na segunda versão, é usada na Páscoa e representa a alegria pela ressurreição de Cristo.

Bento XVI passou a empunhar um cajado dourado e com a extremidade em forma de cruz grega. Ele é bem diferente do utilizado pelo papa anterior, que era prateado e tinha um crucifixo na ponta. O de Bento XVI pertenceu a Pio IX – cujo pontificado se estendeu entre 1846 e 1878. Além de mais leve do que o anterior, ele está mais de acordo com a tradição papal – que, até Paulo VI, jamais havia colocado um crucifixo na sua extremidade. O acessório é uma referência ao cajado com que o pastor conduz o rebanho e àquele com o qual Moisés conduziu o povo eleito à liberdade. Em seu livro O Espírito da Liturgia, lançado em 2000, Bento XVI já ressaltava a importância de reforçar a fé através do aspecto místico das celebrações, enriquecendo-as com símbolos tradicionais. Como diz um artigo recente do L’Osservatore Romano, jornal editado no Vaticano, o papa não se veste com Prada, mas com Cristo.

Chapéu Saturno

O vermelho desse acessório era a cor distintiva dos papas na hierarquia da Igreja até o século XVI, quando Pio V instituiu o branco. Os papas João XXIII e João Paulo II chegaram a usar o saturno em viagens a países tropicais, mas não o adotaram sistematicamente

Pálio

A peça de lã branca evoca a ovelha desgarrada, carregada nos ombros pelo bom pastor. As cruzes vermelhas representam as chagas de Cristo. No começo de seu pontificado, Bento XVI vestia um modelo de pálio fora de uso desde o século IX. Recentemente, optou por um modelo semelhante ao de seus antecessores imediatos

Camauro

Assim como o chapéu saturno, o gorro vermelho, usado no inverno por Bento XVI, é uma herança do tempo em que essa era a cor oficial do pontífice. João XXIII foi o último papa do século passado a usar o camauro, que caiu em desuso a partir do pontificado de Paulo VI, iniciado em 1963

Mozeta

A capa curta, feita de damasco – uma seda com fios de cetim em alto relevo –, é branca, em referência à renovação simbolizada pela ressurreição de Cristo. A mozeta, usada pelo pontífice na Páscoa, foi introduzida no século XIII e não era vista desde o fim do pontificado de João XXIII, em 1963. Os últimos papas só adotaram a versão de verão da roupa, de cetim vermelho

Cajado

Simboliza o cajado com que o pastor conduz as ovelhas e aquele com que Moisés conduziu o povo eleito à liberdade. O utilizado pelo atual papa pertenceu a Pio IX, que governou a Igreja entre 1846 e 1878. João Paulo II usava o mesmo de seus antecessores imediatos, João Paulo I e Paulo VI, prateado e com um crucifixo na extremidade. O de Bento XVI traz uma cruz grega

Sapatos vermelhos

Representam o sangue do martírio de Cristo. Antes do pontificado de Paulo VI, apresentavam apliques de cruzes douradas, que simbolizavam a autoridade papal. João Paulo II chegou a usar os sapatos vermelhos no início de seu pontificado, mas logo os substituiu por sapatos marrons comuns.
O que posso dizer? Vanessa Vieira mandou muito bem. Ótima fundamentação tanto histórica quanto litúrgica (e inclusive artística, ao mencionar obras que retratam outros Papas usando os acessórios retomados por Bento XVI). O principal mérito da reportagem é mostrar que cada objeto tem seu significado, e que não se trata de "sair bonito" na foto. Só faltou mesmo foi dizer que o "cajado" se chama, na verdade, férula. Quem usa cajado (quer dizer, o nome correto é báculo, mas tem formato de cajado) são os bispos. Um detalhe menor, reconheço, que em nada prejudica a reportagem.

Isso aí, continuem tentando

Dando uma olhada em outros blogs católicos em inglês, achei isso aqui. É uma notícia do New York Times, publicada domingo:

Ancient tablet ignites debate on Messiah and ressurrection

Dando uma boa resumida, para quem não fala inglês: uma placa com um texto em hebraico, datada de algumas décadas antes do nascimento de Cristo, menciona um Messias que deve sofrer e ressuscitar depois de três dias, ou seja, um pouco oposto à visão que se tinha de um Messias triunfante que chegaria com tudo e daria um pé nos romanos.

Ainda não se tem certeza da autenticidade do negócio, mas o curioso é que a reportagem tenta fazer essa "descoberta" (entre aspas porque a placa não foi descoberta agora; já estava em posse de um colecionador faz uns 10 anos) comprometer... o Cristianismo! Primeiro, um professor de Berkeley diz que alguns cristãos acharão a descoberta chocante, pois contesta a "singularidade de sua teologia"; depois, um professor da Universidade Hebraica de Jerusalém diz que o conteúdo da tábua balançaria a visão básica do Cristianismo, porque a ressurreição no terceiro dia se tornaria uma idéia criada antes de Jesus... pelamordedeus, o que o sujeito tenta insinuar? Que Jesus e seus discípulos "copiaram" a idéia? O mesmo professor afirma que, no Novo Testamento, Jesus faz várias previsões sobre seu sofrimento, morte e ressurreição, mas que se acreditava que isso teria sido incluído depois pelos seus seguidores. Então, a tábua "sacode" essas teorias porque prova que, já na época de Jesus, havia a idéia de um Messias sofredor e que ressuscitaria no terceiro dia.

Bom, tudo isso não passa de palhaçada. Afinal de contas, parece que o repórter e seus entrevistados vêem um "problema" no fato de Jesus ser o cumpridor de profecias judaicas. São Mateus gastou um Evangelho inteiro para mostrar aos judeus que Jesus era o Messias profetizado em várias passagens do Antigo Testamento. Então o que há de extraordinário no fato de aparecer mais uma profecia realizada por Jesus? Pelo contrário: para mim, a tábua (caso seja mesmo autêntica) seria uma confirmação de que Jesus era realmente o Messias esperado pelos judeus.

A não ser, claro, que o pressuposto do repórter e dos entrevistados seja o de que Jesus fosse uma farsa. Aí a reportagem faz sentido. Porque, digamos, até então o Cristianismo seria uma farsa digna de Oscar de roteiro original: o Messias que sofre, é morto pelos romanos, ressuscita em três dias... realmente, uma historinha nova, muito bem bolada pelos primeiros cristãos. Mas aí aparece a tal tábua e se "prova" que os cristãos não poderiam levar mais que o Oscar de roteiro adaptado, afinal eles não fizeram mais que copiar a historinha da ressurreição em três dias de uma crença já difundida na época... ou seja, mais uma tentativa de desacreditar o Cristianismo na grande imprensa.

Isso é mais uma confirmação daquela frase que ouvi uma vez, e só não me lembro de quem é: para quem quer acreditar, nenhuma prova é necessária; para quem não quer, nenhuma prova será suficiente.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Dom Clemente agora já tem para onde ir

Lembram de dom Clemente Isnard, que como Catilina abusou da nossa paciência naquela entrevista em que fez de tudo, menos expor doutrina católica? Pois bem, agora ele já tem para onde ir, pois os anglicanos, que já ordenavam ao sacerdócio tudo o que encontrassem pela frente, resolveram passar a ordenar mulheres ao episcopado.


Sonia Hernandes vai perder a exclusividade de ser a única "bispa" do planeta... (a foto é cortesia da polícia americana)

Bom, o Vaticano lamentou a decisão, e aqui você lê a versão da Reuters para o caso (republicada pelo site da Gazeta do Povo).

A certa altura, a Reuters diz

A Igreja Católica veta as mulheres no clero sobre a argumentação de que Jesus só escolheu homens como apóstolos.
Isso é correto: a Igreja realmente veta mulheres no clero. Mas o fato de os Apóstolos serem homens é um dos argumentos -- outro argumento, que eu considero bem forte, se relaciona ao fato de o próprio Cristo ser "homem do sexo masculino", como dizem os Cassetas, e de o sacerdote agir in persona Christi.

Mas, na carta Ordinatio Sacerdotalis, o Papa João Paulo II usa apenas o argumento dos apóstolos, aprofundando bastante no assunto e explicando por que não se pode ordenar mulheres. Ele ainda afirma que isso deve ser considerado como definitivo por todos os fiéis da Igreja -- viu, dom Clemente?

Novidade no blog

Vejam aí do lado, uma listinha de blogs e sites. A maioria é sobre religião, mas tem algumas outras coisas, como o do jornal onde trabalho, e o hilário Opinião Popular, uma sátira do modo de pensar esquerdóide. Com o tempo, pretendo ir acrescentando mais coisa interessante.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

E dá-lhe Águia!

Ops, desculpem o meu momento "torcedor do São José Esporte Clube".

O Jornal de Santa Catarina circula com uma edição única de fim de semana, e tem um caderno chamado Viver! que por sua vez traz uma página esotérica chamada Alma Zen. No jornal deste fim de semana que passou, há um textinho sobre o Garuda, um deus dos pássaros indiano, meio gente, meio águia. Entre as curiosidades sobre o Garuda, lemos o seguinte:
Garuda é também a palavra alada, o triplo Veda, um símbolo do verbo, ou seja, o mesmo que a águia representa na iconograifia cristã.
Obviamente eu não entendo nada de hinduísmo. "Triplo Veda", pra mim, seria um produto pra se comprar em supermercado ou casa de ferragens para consertar ou prevenir vazamentos. Mas o que interessa aqui é a "iconografia cristã".

Até onde eu sei, o que a águia realmente simboliza é o evangelista São João. Aqui dois exemplos que eu conheço "pessoalmente:

Basílica de São Clemente, Roma, o mosaico absidal mais espetacular que eu conheço:


E catedral de Siena, outra igreja inesquecível por causa de seu estilo único:

É verdade que São João foi o evangelista que escreveu sobre o Verbo (com maiúscula, ao contrário do que saiu no jornal), mas eu não achei nada que relacionasse diretamente a águia ao Verbo -- as referências sempre ligam a águia ao evangelista.

Por fim, segue, para quem se intereressa pelo assunto, uma fonte interessante (em inglês) sobre a iconografia relativa aos evangelistas.

PS1: a águia é o mascote do São José Esporte Clube, conhecido como a "Águia do Vale"

PS2: já estou com o texto da Veja sobre o guarda-roupa papal. Comento mais tarde.