terça-feira, 9 de setembro de 2008

Tradutores traidores

Os italianos é que sabem das coisas: traduttore, tradittore, dizem. Foi bem o que aconteceu com um texto da Ansa reproduzido pelo Estadão, a propósito da campanha que a Igreja no México lançou contra o aborto (obrigado ao Fernando Tavolaro pelo alerta).

A certa altura, o texto afirma:
"A Igreja sempre seguirá pregando a defesa da vida desde sua concepção. Embora permita a convivência de pessoas do mesmo sexo, a Igreja continuará defendendo que o matrimônio seja entre um homem e uma mulher", comentou.
Opa! Como assim, a Igreja permite a convivência entre pessoas do mesmo sexo? O padre Demétrio Gomes foi procurar o original em espanhol e achou o seguinte:
La Iglesia siempre seguirá pregonando la defensa de la vida desde su concepción. Igualmente, aunque se permita la convivencia de gentes del mismo sexo, la Iglesia seguirá defendiendo que el matrimonio es entre hombre y mujer.
"Aunque se permita" significa "ainda que se permita". Quem permite? Não a Igreja, e sim o Estado, a Justiça, um terceiro qualquer. Ou seja, ainda que as leis civis permitam a união homossexual, a Igreja seguirá afirmando que o matrimônio existe só entre homem e mulher.

O Estadão pode argumentar que a culpa não foi deles, pois a tradução errada veio da própria Ansa.

Agora, a pergunta. Ninguém lê uma barbaridade dessa e acha esquisito? Minha nossa, editor não serve só para achar erro de gramática, ortografia e pontuação; para isso basta um revisor bem qualificado. Editor também serve para apontar incoerências, pedir ao repórter para verificar coisas que estão faltando, ou verificar informações que não batem. E, convenhamos, um cardeal dizer que a Igreja aceita a convivência entre homossexuais não bate. Falta desconfiômetro nas redações.

2 comentários:

pedro disse...

Falta é vergonha nas redações...

Emanuel Jr. disse...

Na verdade sabemos que falta desconfiômetro em muitas coisas.