domingo, 4 de janeiro de 2009

O Rodolfo tinha razão...

... quando me aconselhou a não subestimar os meus colegas neste fim de ano. Meus pais assinam a IstoÉ, e só agora eu tive a chance de ver a matéria publicada na edição de 24 de dezembro, sobre o cotidiano de Nossa Senhora.


Eu sinceramente gostaria de saber quem é o editor dessa área onde trabalha o tal João Lóes. Porque, aqui na Gazeta do Povo, onde trabalho, nós, editores, não aceitamos reportagens que tragam uma série de afirmações simplesmente sem fonte alguma! Vejam essa série impressionante:

Sabe-se que ela era uma dona-de-casa judia que morava na vila de Nazaré, na Galiléia, povoado colonizado pelos romanos. Criava galinhas no fundo do quintal e acordava com o barulho delas, ainda de madrugada, para iniciar suas atividades domésticas. Vivia em condições muito simples. Dormia em uma esteira, num chão de terra batida sobre a palha, numa casa que cheirava a óleo queimado, proveniente de uma lamparina que ela mantinha acesa, acomodada em uma cavidade na parede. Vestia o mesmo traje, independentemente da ocasião: uma túnica de linho, com a qual realizava seus afazeres ou saía para alguma atividade, sem esquecer de colocar o véu, em respeito ao marido. Era uma mãe zelosa e dedicada, que sempre tentou manter o filho próximo de si. Durante a infância de Jesus, gostava que o garoto ajudasse o pai, José, na oficina. Caso não houvesse trabalho, ela recrutava a criança para ajudar nas tarefas domésticas, como fazer farinha de cevada, buscar água na fonte e limpar a casa, que só tinha um cômodo.
Apesar de nunca esquecer que estava criando o filho de Deus, o Messias, nascido para salvar os homens, ela não se intimidava em recriminá-lo. E o fez diversas vezes durante toda a sua vida. Ralhava em público com o menino, principalmente depois que ele desenvolveu o hábito de dar umas escapadas para o templo, a partir dos 12 anos. (...) Também há relatos de discussões entre mãe e filho, quando Jesus era jovem e ainda não havia saído em pregação. Num primeiro momento, ele se levantava e saía, deixando a mãe falando sozinha, mas Maria o chamava aos gritos e ele voltava atrás.


Então tá. Quem disse isso? Está escrito onde? De tudo isso aí, a "escapada" (no singular) aos 12 anos é a única afirmação comprovável pelos Evangelhos. Mais tarde, na matéria, o repórter citará os evangelhos apócrifos, mas menciona nominalmente apenas o de Tiago. O problema é que esse apócrifo, como a própria matéria diz, vai apenas até o nascimento de Cristo, ou seja, não poderia ser a fonte de vários dos trechos citados acima. Entendam: boa parte disso tudo pode até ser verdade, mas em jornalismo a gente não tira esse tipo de coisa do nada; precisamos dar a fonte. Há estudos mostrando que os judeus da classe social da Maria dormiam em esteiras no chão? Ótimo, mas então o repórter precisa dizer no mínimo quem fez a pesquisa.

Como em toda matéria que se preze sobre Maria, não podia faltar o lance dos "irmãos de Jesus":

Contrariando o discurso oficial católico, muitos estudiosos garantem que ela teve outros filhos com José
"Muitos estudiosos" é muleta de jornalista incompetente. Que estudiosos? Queremos nomes e instituições a que pertencem, para sabermos se têm alguma representatividade. Além disso, já foi explicado tantas vezes que o vocabulário do idioma de Jesus tinha apenas uma palavra para designar vários membros da família que é preciso ser muito cara-de-pau para continuar trazendo à tona essa questão. Claro que o repórter não foi atrás de nenhum teólogo que pudesse dar a versão ortodoxa para essa questão, não é mesmo? Porque desse jeito não teríamos a polêmica...

Resolução para 2009: esperar até meia-noite de 31 de dezembro para afirmar que essa ou aquela besteira "encerra o ano".

PS: a imagem é o mosaico da Mãe de Deus de Vladimir, na catedral de Santo Isaac, São Petersburgo, Rússia.

8 comentários:

Michelli Brainer disse...

Nossa!!!!!!!! Até o cardápio o cara sabe? A marca do perfume tb? O mercado q comprava a farinha pra fazer o pão...
É cada uma! kkkk

Maria João disse...

A desinformação é terrível... Ainda por cima estamos numa época em que se acha que a cultura geral inclui tudo, menos religião...


beijos

R. B. Canônico disse...

É Márcio, eu não sou profeta mas a vida já me ensinou muito! Não duvidar da (in)capacidade das pessoas é uma delas! Hehehehe.

Mas já deixo aqui uma sugestão sobre o tema. Um livro do grande historiador Henri Daniel-Rops, chamado "A Vida no Tempo de Jesus".

Essa sim uma boa referencia para estudar o tema.

Abraços!

Pedro disse...

Nossa, só querem ser a Caras da Palestina no século I. Faltou dizer onde a Sagrada Família passava as férias.

Matheus Cajaíba disse...

Marcio, feliz ano novo! Escuta, você leu o brlhante texto do Pe. John Flynn na Zenit:

Informar ou desinformar sobre a religião

Pontos obscuros e cobertura tendenciosa da mídia

http://www.zenit.org/article-20515?l=portuguese

Dê uma olhada, você vai gostar! Um grande abraço e feliz 2009!

Carlos Kramer disse...

Olá, Márcio,

Não conhecia este blog. A idéia é muito boa, precisamos mesmo de um observador para essa imprensa maluca, principalmente em questões religiosas, e sobretudo quando o assunto é cristianismo. Parabéns! Já está na minha lista de RSS.
Quando eu achar essas coisas doidas, te envio.

Abraços,
Carlos Kramer

Carlos Kramer disse...

Promessa é dívida. Olha aí que notícia mais doida:

http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL957198-6174,00-VIDEO+NO+YOUTUBE+DISCUTE+DEVOCAO+DE+IRMAS+CARMELITAS+NA+ESPANHA.html

Leia a notícia, veja o vídeo no youtube e nos diga se não há algo de estranho e incompatível entre um e outro.

Abraços,
Carlos

Carlos Kramer disse...

Ops,
O link saiu cortado. Entre no G1 e procure por "carmelitas". Veja uma notícia sobre um vídeo que "discute" a devoção das carmelitas na Espanha. Eu li e achei que era um vídeo ofensivo às irmãs, tanto que o texto informa que "a responsável pelo convento afirmou que não gostaria de ver o vídeo publicado em outros sites." Mas o vídeo, na verdade, é uma apologia ao estilo de vida delas. Ou há muita má vontade entre os jornalistas, ou muita burrice mesmo.

Abraços,
Carlos Kramer