terça-feira, 25 de março de 2008

Os freis cappuccinos ganharam companhia

Desculpem o sumiço - muito, mas muito trabalho no jornal. Várias novidades, a Gazeta do Povo de domingo vai bombar. Espero que todos tenham tido uma santa Páscoa.



Já faz um tempo (coisa de alguns anos), li numa matéria da Folha de S.Paulo alguma coisa sobre religião, e uma hora o texto falava de "freis cappuccinos". Como já naquela época eu era um jornalista muito implicante, escrevi ao ombudsman, que não lembro quem era, acho que o Mário Magalhães, e questionei essa nomenclatura. A não ser que se tratasse de alguma nova congregação dedicada a fazer café (o que não é inverossímil - sabiam que muita bebida boa saiu de mosteiros?), o certo devia ser "capuchinhos".

Alguns dias depois, o ombudsman me respondeu dizendo que havia consultado o editor de Cotidiano da Folha. O tal editor, bem monossilábico, se limitou a copiar um verbete "do dicionário Michaelis". O verbete era "cappuccino". A definição 1 descrevia o café. A definição 2 dizia "frei capuchinho". Pois bem, o editor teria me convencido... se esse verbete não tivesse sido retirado do dicionário italiano-português Michaelis - que, para azar do jornalista, eu também tinha. Apontei ao ombudsman a picaretagem do seu colega de Folha. Depois disso não recebi mais resposta.

Lembrei-me dessa pequena anedota a propósito disso aqui:

Gravadora contrata monges depois de vê-los na web

O texto não tem nada de mais. Só chama a atenção isso aqui:
Os monges são da ordem dos cistercianos.
Obrigado ao Davi Redemerski por chamar a atenção na lista Tradição Católica a respeito disso. Bom, não existe nenhuma ordem dos "cistercianos", assim como não existem "freis cappuccinos". Existe, sim, a ordem dos cistercienses. Mas, como em inglês é "cistercians", o esperto redator do Terra resolveu que nem precisava consultar um dicionário (o Aurélio tem um verbete chamado "cisterciense") e traduziu do jeito que ele achou que era. E, como sabemos, nem tudo que o Terra acha realmente é.

sábado, 15 de março de 2008

Mas ainda estão caindo nessa?

Estou passando o fim de semana com a Cristina em Blumenau, e eis que vejo uma chamada do Estúdio SC, o programinha que a RBS daqui exibe depois do Fantástico. Eles vão falar, adivinhem?, dos "novos pecados capitais". Mostram carros de luxo enquanto falam que agora ser muito rico também é pecado, e vão ver o que os catarinenses acham da "lista que o Vaticano publicou".

Tudo bem que esse blog não é assim um campeão de leitura, mas será possível que ainda estejam tratando o assunto desse jeito? O próprio Vaticano já tratou de anunciar que não havia lista, muito menos de "novos pecados capitais".

A página para a qual dei link acima tem, lá embaixo, uma caixa de "fale conosco". Que tal explicarmos a verdade para esse pessoal? Uma sugestão é dar o link da Canção Nova a tradução da entrevista que saiu no L'Osservatore Romano.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Dois mais ou menos absolvidos e um que precisará de muita penitência

Obrigado ao THT pela lista.

O Correio da Bahia não apenas não entrou na onda dos "novos pecados capitais", como fez a diferenciação. Também deixou de lado aquela babaquice da BBC Brasil sobre "riqueza extrema" ser pecado. Só escorregou na história de os pecados serem "novos".

Já o O Povo, de Fortaleza, embora não tenha comprado o discurso de "novos pecados capitais", resolveu entrevistar justo o Beozzo? Com tanto teólogo decente por aí... quer dizer, vá lá, podem não ser tantos assim, mas melhores que um TL garanto que existem. E olha que fiquei com dúvidas em relação à posição do Beozzo sobre células-tronco embrionárias, por exemplo.

E, pelo contrário, a Época tenta cavar seu lugarzinho no círculo do inferno reservado aos jornalistas que distorcem o que a Igreja diz. Como se a BBC Brasil não tivesse feito bobagem suficiente, a Época tenta piorar a situação.
a Igreja Católica pretende editar uma nova relação que pode deixar ainda mais fiéis do lado de fora do paraíso.
Não, caro Thiago Cid, a Igreja não pretende fazer absolutamente nada.
As mudanças foram anunciadas pelo monsenhor Gianfranco Girotti – considerado o número do 2 do Vaticano
Não houve nenhum "anúncio de mudança". Houve uma simples entrevista sobre as funções da Penitenciaria (sem acento) Apostólica. E o "número 2 do Vaticano" é o cardeal Bertone, secretário de Estado. Girotti pode ser o "número 2" da Penitenciaria.
A lista de novos pecados, porém, ainda não foi oficializada pelo Vaticano.
Provavelmente a lista não vai ser oficializada pelo Vaticano porque não existe lista nenhuma para ser oficializada...

terça-feira, 11 de março de 2008

O que mais me surpreende...

... nessa história dos "novos" pecados é que a matéria original, do L'Osservatore Romano, não passava de uma inocente entrevista sobre a Penitenciária Apostólica, um órgão do Vaticano (leiam a íntegra no link da Canção Nova que eu passei no post abaixo). Aí pegam uma pergunta e em cima dela montam todo um estardalhaço que corre o mundo, inventando listas de "novos pecados" (e olha que tem coisas na lista que nem Deus sabe de onde saíram)... será que anda faltando notícia no planeta?

Com vocês, os "novos" pecados

Um texto da BBC Brasil datado de ontem causou polvorosa no mundo católico, e fez a alegria de jornais que adoram essas coisas pitorescas sobre a Igreja.

Vaticano divulga lista de novos pecados capitais

Foi uma pena que eu não tenha conseguido o texto em italiano do L'Osservatore Romano de domingo, que é a fonte original do rebuliço. Assim eu teria comparado exatamente o que saiu com o que a BBC Brasil disse que saiu (afinal, todos sabemos que a regra é haver diferenças gritantes entre uma e outra coisa). Mas o site da Canção Nova publicou o que parece ser a tradução do texto.

Lendo a notícia na Canção Nova, logo de cara se descarta que os "novos pecados" sejam "pecados capitais". Afinal, pecado capital é um vício do qual derivam vários outros. Em outras palavras: no fim das contas, praticamente todos os pecados são expressões (ou "aplicações práticas") desses sete. E a nova lista traz coisas muito específicas. A Gazeta do Povo, por exemplo, adotou a nomenclatura "pecados sociais". Eu fico com o pé atrás em relação a isso: "pecado social" é um conceito que a TL adora, porque o "pecado de todo mundo" acaba virando o pecado de ninguém, e a responsabilidade individual vai pro espaço - podemos ver isso em alguns folhetinhos de missa, quando no ato penitencial as pessoas são levadas a pedir perdão pelo pecado dos outros, pelo pecado da comunidade, mas nunca pelo próprio pecado. Na verdade, o Vaticano fala de pecados individuais com conseqüências sociais.

Bosch, que vocês já conhecem desse blog, pintou os sete pecados capitais. Abrimos, claro, com o "pai de todos", a soberba.

E também descarto a interpretação de que esses pecados sejam "novos", no sentido de que antes não eram pecado, e agora passam a ser. Qualquer cristão consciente sabia, muito antes dessa lista, que "causar injustiça social" e "poluir o meio ambiente" eram pecados (Deus não colocou o homem no jardim para que cuidasse dele? Então, usar mal os recursos naturais pode ser considerado um dos primeiros pecados, em ordem cronológica...). "Usar drogas", inclusive, já constava até no Catecismo publicado em 1992:
2291 O uso da droga causa gravíssimos danos à saúde e à vida humana. Salvo indicações estritamente terapêuticas, constitui falta grave.
Qualquer pecado sempre foi pecado e sempre continuará sendo. Lembro da época do lançamento do Catecismo de 1992, em que diziam "soltar cheque sem fundo agora é pecado". Bobagem: mesmo antes de 1992, cheque sem fundo já era pecado, pois constitui fraude. Por outro lado, diziam que os duelos tinham saído do catecismo. Óbvio: ninguém mais fica trocando golpes de espada na rua. Mas, caso ainda haja quem prefira resolver suas diferenças assim, um aviso: duelar continua sendo pecado. Da mesma forma, no Catecismo não diz que hackear computadores alheios para pegar senhas é pecado - mas quem duvida de que é uma atitude moralmente errada?

Gula - só porque está quase na hora do almoço.

E ainda nem falamos das interpretações individuais de cada pecado!

Não sei como, porque não solicitei nada disso, estou no mailing de um site humorístico chamado Central de Notícias Populares, com o subtítulo "Jornalismo com responsabilidade social". Pois bem, ontem mesmo recebi um aviso:
Transgênico agora é "pecado" – O pessoal da “Opus Dei” que se relaciona aí com parte da imprensa brasileira, está em apuros. É que o Vaticano incluiu os organismos geneticamente modificados na lista de “pecados modernos”. E pela “cobertura” que os grandes medias dão aos opositores dos transgênicos, uma boa parte já está com seu cantinho reservado no inferno. Claro que lá, estarão em boa companhia, com a Monsanto, a Bunge , a Cargill, a Syngenta e outras empresas que querem patentear a vida e empestiar toda a superfície da terra com os seus royalties.
(OK, pausa para as gargalhadas. É ou não é verdade que socialismo em excesso faz mal ao cérebro?)

Bom, se a infiltração da Obra na imprensa fosse do jeito que esse povo imagina, garanto que o jornalismo brasileiro seria muito melhor - e não sairia tanta bobagem sobre a Igreja na imprensa, concordam?

Agora, vamos ao que o Vaticano entende por "modificação genética". Com a palavra, monsenhor Gianfranco Girotti:
na área da bioética, aonde não podemos deixar de denunciar algumas violações nos direitos fundamentais da natureza humana através de experimentos, manipulações genéticas
Ficou claro ou preciso desenhar? A manipulação genética condenada é aquela feita com seres humanos. O Vaticano não tem nada contra os transgênicos.

A BBC Brasil fez (e outros copiaram) uma listinha de pecados. Curiosamente, no site da Canção Nova não tem listinha nenhuma. Pior ainda - na relação da BBC Brasil tem coisa que simplesmente nem foi mencionada na entrevista com o monsenhor Girotti, como
5. Tornar-se extremamente rico
Na Canção Nova não tem, mas eu queria muito ver se no L'Osservatore Romano saiu algo parecido. Porque ser rico, ou "extremamente rico", não é pecado. O pecado é ter acumulado riqueza explorando outros, recorrendo à fraude, e ser apegado às riquezas. Quem se tornou "extremamente rico" trabalhando duro, remunerando seus empregados de forma justa e não se apegando à riqueza conquistada não faz nada de errado.

A BBC Brasil ainda cometeu uma gafe monstruosa:
Na entrevista ao Osservatore Romano, Girotti recordou as recomendações para se receber o perdão.

"Confissão em 15 ou máximo 20 dias antes ou depois de cometer o pecado, comunhão, oração segundo as intenções do papa, pureza e caridade", disse o clérigo.
Confissão antes de cometer o pecado? Isso simplesmente não existe! Vejamos agora o que saiu na Canção Nova:
Nicola Gori - Não parece que as condições para ter indulgências sejam leves?
Gianfranco Girotti - Se juntamente às condições impostas - confissão sacramental, não mais do que há 15 dias antes ou depois da indulgência, comunhão eucarística e oração segundo as orações do pontífice – pensemos que para adquirir a indulgência também é pedido um grau de pureza e sinais de ardente caridade, coisas difíceis à nossa fragilidade, então diria que aquilo que está estabelecido não é de se minimizar.
O erro é grotesco. A confissão é dias antes ou depois da indulgência, não do pecado! Antes mesmo de eu ler o texto na Canção Nova, o Jorge Ferraz já tinha cantado essa bola: a de que o padre estivesse se referindo a indulgências, que de algum modo a imprensa entendeu como "perdão dos pecados". O que não é surpreendente, já que muitíssimas vezes vi essa confusão nos jornais.

(Desculpem, não achei as reproduções detalhadas dos outros pecados segundo Bosch)


Mas bem que podiam incluir na listinha "distorcer informações sobre a Igreja"...

Mistério resolvido

Faz alguns dias perguntei, nesse blog, por que quase ninguém noticiou a nota da CNBB sobre as Católicas pelo Direito de Decidir.

Ontem, depois que eu li a abjeta Mensagem às Mulheres do Brasil, em que os bispos defendem as invasoras da Via Campesina (dane-se o que João Paulo II disse a respeito, não é mesmo?) e denunciam que o verdadeiro invasor é o "capital internacional", cheguei à seguinte (triste) conclusão:

Nenhum jornal divulgou a nota sobre as CDD porque todos acharam que era trote.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Aguardem e confiem

Não sei se vai dar pra hoje, mas certamente comentarei a estátua de Galileu e os novos "pecados capitais".

sexta-feira, 7 de março de 2008

O que a decadência faz...

Vocês devem se lembrar de Paulo Henrique Amorim. Um dia ele foi da Globo. Hoje nem sei por onde anda, exceto pelo fato de ele ter um blog no iG. Numa coluna, Diogo Mainardi escreveu que a carreira de Paulo Henrique Amorim estava na descendente, o jornalista não gostou e entrou com processo, e perdeu. O juiz, para completar a humilhação, ainda justificou na decisão que, para quem já havia ocupado horário nobre na Globo, ter a posição que tem agora realmente representa estar com a carreira em declínio.

Pois bem, agora Paulo Henrique Amorim resolveu bater forte no ministro Carlos Alberto Direito por sua decisão de pedir vistas no julgamento da pesquisa com células-tronco. O jeito de escrever de PHA é curioso: ele gosta de seqüências de várias frases curtas. Não sei se isso é questão de estilo (bem ruinzinho, diga-se de passagem) ou é causado também pelo declínio na carreira jornalística - Deus queira que nunca aconteça comigo, e que eu envelheça sabendo escrever parágrafos inteiros de tamanho respeitável para expressar minhas idéias.

Anyway: uma das brincadeiras prediletas de PHA é chamar o ministro Direito de "fundamentalista". Aliás, ele também chama a causa contra a pesquisa com embriões de "fundamentalista". Convenhamos - o adjetivo tem carga pejorativa, mas, como diz o ditado, há malas que vão pra Belém. Uma coisa que não se pode negar é que no nosso lado (o lado contra a destruição de embriões) o que não falta é fundamento: fundamento científico, fundamento legal, fundamento ético. Então acho até que dá pra dizer mesmo que somos fundamentalistas, e dos bons, já que estamos cheios de fundamento.

Especialmente divertido foi ler o seguinte:
O Ministro Direito é católico militante e está à direita da Opus Dei e do Papa Bento XVI.
Não sei o que significa estar "à direita" do (é masculino) Opus Dei e do Papa. Aliás, falando em Bento XVI, vamos recordar o que ele disse, quando ainda era cardeal Ratzinger, na homilia da missa Pro Eligendo Pontifice, em abril de 2005:
Quantos ventos de doutrina conhecemos nestes últimos decénios, quantas correntes ideológicas, quantas modas do pensamento... A pequena barca do pensamento de muitos cristãos foi muitas vezes agitada por estas ondas lançada de um extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, até à libertinagem, ao colectivismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo e por aí adiante. Cada dia surgem novas seitas e realiza-se quanto diz São Paulo acerca do engano dos homens, da astúcia que tende a levar ao erro (cf. Ef 4, 14). Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, muitas vezes é classificado como fundamentalismo. Enquanto o relativismo, isto é, deixar-se levar "aqui e além por qualquer vento de doutrina", aparece como a única atitude à altura dos tempos hodiernos. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades.
Agradeçamos a Deus por Bento XVI!

Falta informação ao filósofo

Outro anti-católico de carteirinha é o Helio Schwartsman, editorialista da Falh... oops, Folha de S.Paulo. Filósofo, ele adora descer o malho nos católicos em nome do avanço da ciência ou algum outro dogma iluminista. Na coluna de anteontem, ele resolveu baixar ainda mais o nível:

O prazer de perdoar

O texto repete a mesma lenga-lenga anti-católica que já conhecemos, e deixo as respostas adequadas para pessoas mais competentes. O que eu faço aqui é me limitar a mostrar que o editorialista-filósofo não faz muito bem o dever de casa na hora de pesquisar sobre certos assuntos.
Embora os "amici curiae" evitem dizê-lo nos autos, o ponto central, que torna coerente a posição do Vaticano, é um dogma "de fide": o homem é composto de corpo e alma. E, para a igreja, esta é instilada no novo ser no momento da concepção. Só que ninguém jamais demonstrou que existe alma e muito menos que ela se instala no embrião quando o espermatozóide fertiliza o óvulo. O dissenso não opõe apenas religiosos a vis ateus. Uma das mais importantes autoridades da igreja, santo Tomás de Aquino, afirmou, acompanhando Aristóteles, que a alma de garotos só chegava ao embrião no 40º dia. Já a de garotas, talvez porque fossem mais lentas para arrumar-se, só no 48º dia.
Infelizmente essa coisa de "a Igreja ensina que a alma se infunde no momento da concepção" é repetida até mesmo em meios católicos. Já tive um debate numa comunidade de Orkut sobre o assunto, quando alguém trouxe um texto de algum padre desses que faz sucesso em canais católicos (nada contra). Mas, já que o Schwartsman se deu o trabalho de ir pesquisar Tomás de Aquino, podia ter ido também aos arquivos online da Congregação para a Doutrina da Fé, onde está o documento mais recente que trata do assunto. É a Declaração sobre o Aborto Provocado, de 1974.

Vamos aos trechos relevantes. Os negritos são meus:
7. E no decorrer da história, os Padres da Igreja, bem como os seus Pastores e os seus Doutores, ensinaram a mesma doutrina, sem que as diferentes opiniões acerca do momento da infusão da alma espiritual tenham introduzido uma dúvida sobre a ilegitimidade do aborto. É certo que, na altura da Idade Média em que era opinião geral não estar a alma espiritual presente no corpo senão passadas as primeiras semanas, se fazia uma distinção quanto à espécie do pecado e à gravidade das sanções penais.

(...)

13. A esta evidência de sempre (absolutamente independente das discussões acerca do momento da animação)

(...)

nota de rodapé 19: Esta Declaração deixa expressamente de parte o problema do momento de infusão da alma espiritual. Sobre este ponto não há tradição unânime e os autores acham-se ainda divididos. Para alguns, ela dá-se a partir do primeiro momento da concepção; para outros, ela não poderia preceder ao menos a nidificação. Não compete à ciência dirimir a favor de uns ou de outros, porque a existência de uma alma imortal não entra no seu domínio. Trata-se de uma discussão filosófica, da qual a nossa posição moral permanece independente, por dois motivos: 1° no caso de se supor uma animação tardia, estamos já perante uma vida humana, em qualquer hipótese, (biológicamente verificável); vida humana que prepara e requer esta alma, com a qual se completa a natureza recebida dos pais; 2° por outro lado, basta que esta presença da alma seja provável (e o contrário nunca se conseguirá demonstrá-lo) para que o tirar-lhe a vida equivalha a aceitar o risco de matar um homem, não apenas em expectativa, mas já provido da sua alma.
Conclusão: a Igreja nunca se pronunciou definitivamente sobre o momento exato da infusão da alma. Então, por enquanto é lícito defender tanto a animação imediata quanto a animação tardia. O que não se pode é afirmar taxativamente que "a Igreja ensina que a alma se infunde em tal ou qual momento" porque, como vimos, até o momento o assunto ainda está em aberto.

Isso derruba totalmente o argumento do Schwartsman. Para ele, a Igreja defenderia o início da vida na concepção por causa do seu ensinamento sobre a infusão da alma. Mas, na verdade, se a Igreja não sabe ainda qual é o exato momento da infusão da alma (como acabamos de demonstrar), tem de haver outro motivo para a Igreja defender a vida desde a concepção. E esse motivo é dado pela ciência, por mais que o Schwartsman ache isso uma "bobagem".

Ele também afirma que "ninguém jamais demonstrou que existe alma". Diz isso como se fosse um grande golpe desmoralizador na Igreja, sem notar que a sua afirmação é um tanto óbvia, já que a alma é uma realidade espiritual. E o contrário também é verdadeiro, como diz a nota de rodapé do texto da CDF: ninguém jamais demonstrou que não existe alma. E vejam que, lá em 1974, a CDF já respondia ao argumento que se levanta 34 anos depois. Ainda que o embrião não tenha alma, ainda que não se possa provar cientificamente a existência ou não de alma no embrião, no feto, ou até mesmo em mim e em você, a evidência científica garante a presença de vida humana, que merece ser respeitada.

Vejam só: 34 anos antes, a Igreja dando respostas a questões levantadas hoje... tem como não acreditar que Deus assiste essa Igreja?

quinta-feira, 6 de março de 2008

Como não conseguir respostas e ainda posar como jornalista decente

Lembram do artigo de IstoÉ chamado "O bispo intrometido"? Comentei aqui. Agora me vem uma informação do Claudemir, meu colega de listas católicas na net, sobre o fato de dom José não ter respondido as perguntas da revista:
Dom José foi procurado sim para responder alguns questionamentos (por escrito, por solicitação do próprio arcebispo) enviados pela revista. Mas, é importantíssimo levar em consideração o seguinte detalhe: as perguntas foram enviadas a ele algumas horas (isso mesmo, eu disse *algumas horas*) antes do fechamento da edição da revista, de forma que, devido a outras atribuições de seu ministério, ele não pôde responder antes da hora prevista pela Istoé. Ele fez questão de frisar este ponto na última visita que o fiz, há duas semanas.
Se a IstoÉ fosse um jornal diário, eu entenderia, pois trabalho em um. Mas numa revista semanal isso é desonestidade. Dom José não é o Dorival Caymmi, que passa o tempo todo sem fazer nada. Ele tem suas obrigações e são muitas. Querer que ele pare tudo para responder a uma entrevista poucas horas antes do fechamento da revista é pedir para ele dizer "não" à revista. Custava ter mandado as perguntas com alguns dias de antecedência?

Uma questão de mobília

Matéria correta (quer dizer, sem erros de informação sobre a Igreja) na Veja Online:

Padres terão "curso de confessionário"

O curso é para ajudar os padres a se portarem melhor diante de revelações bombásticas ouvidas em confissão. Mas, do jeito que anda o mobiliário das igrejas, e diante da profusão das "salinhas de aconselhamento", acho que não faria falta também um curso sobre como usar o confessionário. Tipo, "padre, o senhor se senta aqui, com a estola roxa; o penitente se ajoelha (sim, é de joelhos) aqui, do outro lado da gradinha"...

Tirando a impaciência do padre, é desse jeito mesmo que se faz!

quarta-feira, 5 de março de 2008

Passou em branco

Impressão minha ou absolutamente ninguém publicou a nota da CNBB sobre as Católicas pelo Direito de Decidir que saiu na segunda-feira?

terça-feira, 4 de março de 2008

Dando um tempo nos embriões

O Terra continua aprontando das suas. Essa saiu ontem:

Corpo de padre Pio é exumado para exibição pública

São Padre Pio, rogai por nós!

O texto é da Assimina Vlahou, da BBC Brasil (não sei se ela ainda é correspondente do Estadão em Roma). Começa assim:
O corpo de padre Pio, santo venerado no mundo católico por ter curado enfermos
Só precisamos lembrar à jornalista que quem faz os milagres é Deus. O santo é só um intercessor. É uma diferença crucial, para que certos protestantes não fiquem nos enchendo.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Depois da Folha Online, é a vez do André Petry

Vocês viram no post abaixo a picaretagem da Folha Online e aquele argumento muito comum usado pela mídia de desqualificar os argumentos contra a pesquisa com células-tronco, ou o aborto, ou a eutanásia, ou sei lá mais o que, simplesmente afirmando que esses argumentos vêm de católicos, e por isso não merecem ser considerados. Mesmo que não falem nada sobre religião. Mesmo que estejam muito bem fundamentados jurídica ou cientificamente.

Pois bem. André Petry, colunista escancaradamente anti-católico da Veja, prepara a mesma armadilha desonesta na coluna que assina na revista dessa semana. Chama-se É pesquisa (ou lixo).

Como lhe faltam argumentos realmente decentes, Petry apela. Depois de descrever a tentativa do então procurador-geral da República, Claudio Fonteles, de derrubar a pesquisa com embriões, Petry diz:
Pronto: a ciência virou sinônimo de assassinato, geneticistas viraram homicidas.
Isso é uma generalização besta, que não se espera de alguém com um mínimo de inteligência. Ou de decência. Imagino que Petry seja inteligente, então resta a outra alternativa. Não é "a ciência" que vira assassinato, não são "geneticistas" que viram homicidas, e sim um tipo particular de ciência e de cientista que não demonstra o menor respeito pela vida humana. O raciocínio infantil de Petry desconsidera que existe uma ciência e existem cientistas pautados pela ética.

Mas continua:
O procurador (...) apresentou-a [a questão sobre o início da vida] porque é um católico ardente.
Quer dizer: ainda que a Adin do procurador Fonteles se baseie exclusivamente em pontos jurídicos como a proteção constitucional da vida, e ainda que essa argumentação seja irrefutável juridicamente, isso não vale nada para Petry porque Fonteles é católico.

E a seguir:
Na ação ao STF, ele lista cientistas que defendem sua tese, mas omite que são católicos militantes. Um é da CNBB. Outro é da Academia Pro Vita, do Vaticano. Seis assinam obra da Pastoral Familiar. Os estrangeiros pertencem à reacionaríssima Opus Dei.
Ou seja, as conclusões científicas e as experiências desenvolvidas pelos cientistas listados por Fonteles não valem nada porque são católicos. Petry simplesmente presume a desonestidade intelectual dessas pessoas apenas por causa de sua religião. "Imagine, eles são católicos, devem ter distorcido todas as suas pesquisas para chegar às conclusões que queriam", é como Petry pensa. Mas a ciência não tem religião. A força da gravidade vale para católicos, judeus, ateus e hare-krishna. Não são apenas os embriões católicos que são humanos, os outros também são. Porque os critérios para definir a vida são científicos, e não religiosos. Nem o Fonteles, nem a Lilian Eça, nem a Alice Teixeira, nem a Lenise Garcia estão dizendo "a vida começa na concepção porque o Papa disse que é assim". Eles estão usando ciência e Direito, e não religião, para combater as pesquisas.

O que eu gostaria de ver é o Petry contestar todos os argumentos puramente de caráter científico e jurídico que se levantam contra a pesquisa com embriões. Mas já adianto: ele é incapaz disso. Justamente por ser incapaz é que ele parte para o ataque ad hominem: "não acreditem no que eles dizem porque são católicos". Qualquer pessoa inteligente e honesta veria que o raciocínio de Petry é firme como prego na gelatina. O problema é que o Brasil não é assim um país repleto de gente inteligente e honesta (basta ver os resultados das últimas eleições), então a picaretagem intelectual de Petry cola - e ele sabe disso.

E engraçado que ele só concede a presunção de desonestidade aos católicos. Logo depois ele menciona uma pesquisa do Ibope encomendada pelas diab... quer dizer, "Católicas" pelo Direito de "Decidir" segundo a qual as pessoas são a favor das pesquisas com embriões. Essa ONG diabólica é explicitamente anti-católica. Mas Petry em nenhum momento insinua parcialidade por parte delas. Só os católicos de verdade é que são desonestos, não é mesmo? Daí se percebe o (mau) caráter de André Petry.

Aliás, fico imaginando se Petry fosse juiz num país que admite a pena de morte. Afinal, a argumentação dele é mais ou menos a seguinte: ninguém sabe exatamente quando começa a vida. Então, podemos detonar embriões. Não deveria ser justamente o contrário? Se não temos certeza, então aqueles embriões podem muito bem ser gente, e então estaríamos eliminando seres humanos indefesos. Imagino Petry julgando um caso em que não há certeza absoluta da culpa de um suspeito. O fato de o acusado poder ser inocente não seria empecilho, então, para ele ser condenado, não é mesmo? Alguém topa fazer essa pergunta a ele?

Na Folha Online, a desonestidade suprema

Só vi agora, mas a notícia é de ontem:

De maioria católica, STF julga uso embriões nesta quarta-feira

O primeiro parágrafo é simplesmente absurdo:
Um plenário composto por ministros católicos decidirá a partir da próxima quarta-feira (5) o futuro no Brasil das pesquisas com células-tronco de embriões humanos, em uma sala que ostenta um grande crucifixo na parede. A tendência dos 11 ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) é liberá-las, apesar das pressões da Igreja Católica contra ela.
A matéria pode não afirmar nada com todas as letras, mas insinua: os ministros do Supremo que votarem contra a pesquisa o terão feito não por motivos jurídicos, mas simplesmente porque são católicos. Isso é canalhice (pronto, falei) da Folha Online.

Querem apostar que, depois da votação, as reportagens virão assim? Na hora de mostrar os votos contrários à pesquisa, os repórteres se limitarão a lembrar que os ministros são católicos; na hora de mostrar os votos favoráveis, teremos longas citações dos ministros, com argumentações desenvolvidas.

A picaretagem continua:
O julgamento será permeado por questões religiosas e argumentos emocionais, tanto por parte da igreja quanto da comunidade científica, que estão em lados opostos nessa batalha.
Mentira deslavada. A comunidade científica está dividida sobre o tema. Do contrário, não haveria tantos cientistas contrários à pesquisa. Na linha de frente da argumentação contrária ao uso de embriões, por exemplo, estão três cientistas: a Alice Teixeira, a Lilian Eça e a minha amiga Lenise Garcia.

Mas, para os meus colegas da imprensa, isso pouco interessa: se os juristas e os cientistas contrários à pesquisa são católicos, quaisquer argumentos jurídicos e científicos que eles apresentem nunca serão passados adiante; ou, se forem, virão sempre com aquela ressalva: "o cientista/jurista Fulano, que é católico fervoroso...", quer dizer, se um cientista fala algo contra a pesquisa, não é porque ele estudou anos e anos o assunto, de um ponto de vista meramente científico, e sim porque ele é católico. Isso é, como eu disse, canalhice pura.

A Folha Online, no entanto, não se contenta com pouco.
O debate será contaminado por argumentos emocionais disfarçados de teses jurídicas.
Como eles sabem? Quer dizer que nenhum dos lados está usando a lei num debate realizado na mais alta corte do país?
a comunidade científica afirma que milhões de pessoas portadoras de doenças diversas dependem da pesquisa com células-tronco para a cura e que as células de embriões são mais promissoras que as adultas (às quais os religiosos não objetam), já que, diferentemente destas, têm a capacidade de se diferenciar em qualquer tipo de tecido no organismo.
Outra mentira. Muitos cientistas (nem é a Igreja, na verdade) têm demonstrado que as pesquisas com células-tronco adultas dão muito mais resultados que as pesquisas com células embrionárias. Pergunte a qualquer cientista honesto (isso faz diferença) e você vai ouvir que, em tese, as células embrionárias até poderiam, sim, ser tudo isso que dizem delas; mas que, na prática, as células-tronco adultas dão de goleada, enquanto as células embrionárias não conseguiram passar do status de eterna promessa. Em breve o site Sociedade Católica promete colocar no ar uma lista com 73 doenças que já podem ser tratadas com células-tronco adultas. Quantas doenças hoje podem ser tratadas com células embrionárias? A resposta está no formato de um dos quitutes preferidos de Homer Simpson.

domingo, 2 de março de 2008

Outra que estava demorando

Assim como essa coisa do Galileu ter sido condenado por "dizer que a Terra girava em torno do sol" (comentei aqui), uma outra falha constante da imprensa na cobertura da Igreja reapareceu ontem. O Thiago me manda um texto de O Globo Online. Infelizmente não achei o link, mas parece que foi publicado no domingo mesmo.

Dom Eugenio Sales abrigou no Rio mais de quatro mil pessoas perseguidas por regimes militares

O texto já começa assim:
Expoente da ala conservadora da Igreja Católica no Brasil, o cardeal-arcebispo D. Eugenio Salles ofereceu proteção a quatro mil pessoas que fugiam das ditaduras do Cone Sul entre 1976 e 1982.
Deus do céu, quando é que vão parar com essas coisas de "conservador" e "progressista"? Como diria o padre Quevedo, "isso non ekziste".

Por "progressista" a mídia costuma entender os padres, bispos e até cardeais que defendem coisas do tipo a abolição do sexto mandamento, a ordenação de mulheres, a mistura de catolicismo com marxismo, essa palhaçada toda. Por exemplo, dom Cappio, o bispo suicida e desobediente ao Papa, seria classificado como "progressista". Dom Tomás Balduíno, que apóia invasões de terra contrariando o que João Paulo II disse várias vezes, seria um "progressista". Dom Pedro Casaldáliga, que chama o Papa Bento XVI de Pilatos em um artigo após a condenação de Jon Sobrino, é um "progressista". As diab... quer dizer, "Católicas" pelo Direito de "Decidir" seriam "progressistas".

Já os "conservadores" são aqueles que, naquela leitura distorcida que os jornais costumam fazer, são chegadíssimos à repressão sexual, à predominância dos homens do sexo masculino na Igreja e à excessiva concentração de poder em Roma. Ou, em outras palavras (sem o preconceito anticatólico), os que defendem a doutrina católica em sua integridade. Dom Eugênio Sales, dom José Cardoso Sobrinho, o Opus Dei, os Legionários e o Regnum Christi, e por aí vai.


Dom Eugênio Sales (foto tirada do blog O Ultrapapista Atanasiano) - reparem nas bandeirinhas: Brasil e Vaticano. Imagino que no escritório de certos bispos a bandeirinha amarela e branca não tenha lugar, porque as preferidas são bandeirinhas vermelhas.

Uma vez entrevistei o teólogo Antonio Marchionni, que me disse um negócio bem simples. Na Igreja não existe divisão entre conservador ou progressista, direita ou esquerda; a divisão é entre quem é fiel à doutrina e quem não é. Quando a mídia rotula gente como dom Cappio, dom Tomás ou dom Pedro de "progressistas", dá a impressão de que é lícito contrariar o Papa, defender a Teologia da Libertação ou as invasões dos baderneiros sem-terra, ou achar que não tem problema abortar. Só que nada disso encontra lugar dentro da Igreja: tudo isso já foi condenado.

Além disso, "progresso" supõe um movimento para melhor, e não um movimento qualquer. Na cabeça dos meus colegas jornalistas, os "progressistas" são aqueles que querem "que a Igreja mude", e ponto. Bom, lá onde trabalham esses bispos, a coisa mudou para melhor? Nas dioceses infestadas pela Teologia da Libertação, onde bispos e padres deixaram de falar de Deus para falar de fazer a revolução proletária, é onde melhor se aplica a triste frase segundo a qual a Igreja fez a opção preferencial pelos pobres, e os pobres fizeram a opção preferencial pelos evangélicos...

sábado, 1 de março de 2008

E as coisas devem continuar como estão

Obrigado ao Johny por me chamar a atenção. Eu já tinha visto essa notícia na Zenit, mas achei que os jornais e sites não iam se interessar por algo tão específico.
Saiu no O Globo Online ontem:

Vaticano proíbe nova fórmula para o batismo

OK, a matéria está até que correta, mas podia ter sido ainda melhor. Não é que o Vaticano tenha determinado que os batismos devem ser realizados com a fórmula tradicional. Isso já está determinado desde que Jesus deu instruções aos apóstolos. A Congregação para a Doutrina da Fé simplesmente declarou que as fórmulas porra-loucas das feministas são inválidas.

Uma coisa que a Reuters acrescentou, mas não havia na Zenit, é que tem católicos que usam essas fórmulas. Olha, infelizmente é até verossímil. Se tem católico defensor da Teologia da Libertação, católico a favor de aborto, não é impossível que tenha católico (sim, falo de padres católicos) usando essas fórmulas para batizar.

Mas pelo menos dessa vez não chamaram a Congregação para a Doutrina da Fé de "o antigo Santo Ofício", não é mesmo?


(O Batismo dos Neófitos, de Masaccio. Pelo menos esses foram batizados direitinho)

Jornal Nacional: manipulação pura

Pronto, vi a reportagem (o link estava aí embaixo). É um nojo, para ficar em vocabulário aceitável.

Primeiro, tenta ganhar o coração da audiência mostrando casos de pessoas com doenças tratáveis com células-tronco, como se depois de amanhã já tivéssemos células-tronco na farmácia, prontas para usar.

À parte o tratamento diferenciado dado aos cientistas que defendem o uso de embriões, o que chama a atenção dentro do escopo desse blog é a frase "Para os religiosos, a vida começa na fecundação, e alguns cientistas também pensam dessa forma". O raciocínio correto é justamente o contrário! É justamente porque a ciência comprova o início da vida na fecundação que as religiões insistem na sua defesa desde a concepção. Que picaretagem, quanta farsa na reportagem! É antiga essa história de atribuir a oposição à pesquisa a "religiosos". Como se não houvesse motivos éticos, científicos e legais para barrar a pesquisa com embriões. Essa sempre é a tática da imprensa, seja nesse caso, no do aborto e em tantos outros. Isso é desonestidade e manipulação.

Engraçado que nessas horas as Diab... quer dizer, "Católicas" pelo direito de "decidir" não sejam um "grupo religioso" - afinal, elas são a favor da pesquisa com embriões. Quando é pra falar de aborto, só falta os jornais dizerem que são um grupo legítimo dentro da Igreja com aprovação pontifícia...

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Novidades à noite

Não vi ainda a matéria do Jornal Nacional sobre células-tronco embrionárias. Ontem, porque estava jogando futebol de botão; hoje, porque aqui onde estou não tem som no computador. Verei hoje à noite e comentarei - aliás, coloquei o link da matéria aqui justamente para que eu não esqueça...

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Só falta trazerem de volta aquela babaquice da renúncia

Texto de anteontem da Folha Online sobre a visita do cardeal Bertone a Cuba:

Raúl Castro recebe secretário de Estado do Vaticano em Havana

Um erro recorrente e uma curiosidade:
É a terceira visita de Bertone a Cuba - o religioso esteve na ilha em 2001, quando era secretário da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (Santo Ofício), e em 2005, como cardeal arcebispo de Gênova.
De novo essa mania de chamar a Congregação para a Doutrina da Fé de "Santo Ofício". Tratei do assunto aqui.

E a nova:
Bertone celebrou missas na Praça da Catedral de Havana, onde pediu um maior espaço para que a igreja cubana possa ampliar sua missão, e na cidade de Santa Clara (centro), onde inaugurou o primeiro monumento público a João Paulo 2º na ilha.
O religioso lembrou das mensagens do ex-papa e disse que "a família, a escola e a Igreja devem formar uma comunidade educativa onde os filhos de Cuba possam crescer em humanidade".
Bom, só é "ex-alguma coisa" quem ainda está vivo e deixou de ser algo. FHC é ex-presidente, mas Mario Covas não é mais "ex-governador". João Paulo II não é e nunca foi "ex-papa", inclusive porque ele foi Papa até morrer.

Só faltavam ressuscitar aquela interpretação idiota do "testamento espiritual" do Papa segundo a qual ele teria pensado em renunciar. Lembram disso? Assim que o Papa morreu, foi divulgado um longo texto contendo suas reflexões. Um trecho dizia:
Foi-me dado viver o difícil século que está se tornando parte do passado, e agora, no ano em que minha vida chega aos oitenta anos (“octogésima advienens”), é preciso que eu me pergunte se não é hora de seguir o exemplo de Simeão, na Bíblia, "Nunc dimittis"
Pois bem, a mídia toda resolveu publicar que o Papa tinha pensado em renunciar depois do Jubileu. Isso é coisa de quem não conhece o Evangelho - em São Lucas narra-se o que Simeão disse ao ver o Menino Jesus: disse que podia morrer em paz, pois seus olhos tinham visto o Messias. Teve gente que até se saiu com análises de latim para forçar a barra na versão da renúncia.

Faça-se justiça: a Gazeta do Povo deve ter sido o único jornal brasileiro que não embarcou nessa onde. Justamente porque na cobertura da morte do Papa tinha gente que conhecia a passagem de São Lucas. Viram como realmente faz falta ter na redação quem conheça o catolicismo?

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Estava demorando, não estava?


(Fico me perguntando o que esse cara diria se soubesse o que falam dele na imprensa atualmente)

Não comentei ontem por falta de tempo, mas claro que vi a matéria do Jornal Nacional sobre a exposição da Inquisição, já mencionada nesse blog. E lá vai a Ilze Scamparini dizer que o Galileu foi condenado, "entre outras coisas", por afirmar que a Terra girava em torno do Sol, "ao contrário do que a Igreja pregava". Bom, se foi realmente assim, me pergunto por que não sobrou também para um religioso chamado Nicolau Copérnico, que foi quem começou pra valer com essa coisa de que a Terra não era o centro do universo.

Quer saber o que realmente aconteceu com Galileu? Dispa-se do preconceito anti-Inquisição (se você tiver algum) e clique aqui para ler um ótimo (e comprido, então reserve um tempo) artigo sobre o assunto.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Chamando Jesus de Gen... quer dizer, João

Quem viu a Gazeta do Povo de ontem ficou sem entender a foto maior da página 6. Na foto, uma pessoa coloca sua mão sobre a mão de uma imagem do Sagrado Coração de Jesus. Mas a legenda diz
Diante da imagem de São João Batista, o mato-grossense Paulo agradece a chance de poder tentar recuperar a visão.
(assinantes podem ver aqui)

Pelo menos nesse caso tem explicação, conta o Mauri, que fez a reportagem e trabalha na mesa ao lado da minha: outras pessoas tinham sido fotografadas diante de uma imagem de São João Batista, e era uma dessas fotos que seria publicada, a legenda inclusive já estava pronta. Só que, na última hora, resolveram colocar outra foto, a do Paulo (e eu particularmente achei uma boa escolha), mas na hora de mudar a legenda trocaram o nome da pessoa fotografada e deixaram o do santo...

OK, distrações como essas acontecem, mas que a página passou por pelo menos três pessoas sem ninguém perceber o erro, passou...

Comequié?

Vejam na descrição aí do lado. Eu dizia que os veículos de comunicação católicos têm a obrigação de noticiar corretamente as coisas da Igreja. Quer dizer, na verdade, todos os veículos de comunicação têm essa obrigação, mas os católicos têm a vantagem de conhecer muito bem o assunto sobre o qual falam.

Quer dizer, era o que eu achava até ler o seguinte na Agência Ecclesia, de Portugal, e no site da Rádio Vaticana:

Aberta exposição inédita sobre a Inquisição

Aberta em Roma exposição inédita sobre Inquisição

(São Domingos presidindo um auto-de-fé, de Pedro Berruguete)

Os dois textos são parecidíssimos. E os dois trazem uma coisa que me chamou muito a atenção na listagem dos objetos expostos:
missal de um santo do século XVII que acreditava ser a reencarnação de Cristo
Fiquei curiosíssimo para saber quem é o indivíduo que alcançou os altares apesar de não apenas crer em reencarnação (preciso explicar que a Igreja condena a reencarnação?), mas também acreditar que ele próprio era a reencarnação de ninguém menos que o próprio Cristo!

E que história é essa de "temido tribunal eclesiástico"? Será que eu preciso recomendar até ao povo da Rádio Vaticana que leia A Inquisição em Seu Mundo, do João Bernardino Gonzaga, para que eles descubram que o direito penal secular da época da Inquisição era muito mais cruel que o direito penal canônico?

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Rejuvenesceram o Papa

Engraçado o Estadão não ter dado uma linha sobre a chegada do cardeal Bertone a Cuba (ou então fui eu que deixei escapar, mas lembro de ter folheado todas as páginas de Internacional). A Folha deu, e a Gazeta do Povo também (não vi os outros). Só achei um erro esquisito: na hora de se referir a João Paulo II, colocaram "(1934-2005)". Como o erro estava nos dois jornais, certamente veio de agência e passou reto pelas revisões. Na verdade, João Paulo II nasceu em 1920. Teremos erratas?

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Quando interessa, qualquer porcaria vira "oficial"

Voltamos àquela reunião do Partido Comun... quer dizer, Encontro Nacional de Presbíteros. Ontem foi a questão do celibato, agora o negócio é uma beatificação. Direto do Recife:

Dom Helder pode ser beatificado

Que beleza. Aqui no jornal onde trabalho um título desses seria execrado. Afinal de contas, não diz absolutamente nada. Dom Helder pode ser beatificado, mas pode não ser. Hoje pode chover, ou pode continuar fazendo esse calor insuportável. A Bovespa pode subir, ou pode cair, ou pode ficar estável. O São José pode subir para a série A1 do Paulistão, pode ficar na A2 ou, toc-toc-toc, pode cair para a A3.

E o pior é que é matéria de internet, onde os editores não estão presos àquela coisa de "ah, tem que ser 3 colunas de 12 toques". Por que não "Padres pedirão beatificação de dom Helder"?

Mas, bem, vamos a trechos do texto:
Pela primeira vez, um documento da Igreja Católica pede a beatificação de dom Helder Camara, ex-arcebispo de Olinda e Recife. A reivindicação consta no documento final do Encontro Nacional de Presbíteros, divulgado na última terça-feira, em Indaiatuba, município do estado de São Paulo, e deverá ser encaminhada à Congregação para a Causa dos Santos, no Vaticano.
Primeiro, que aquela carta comunistóide, e mesmo o documento que prometem divulgar mais pra frente, não são "da Igreja Católica". Se nem a CNBB pertence à estrutura hierárquica da Igreja, imagine o Partido Comun... quer dizer, Conselho Nacional de Presbíteros. O que sai de lá é simplesmente coisa deles, não deve ser atribuído à Igreja. "Documento da Igreja Católica" sai da caneta do Papa, ou da Cúria Romana. No máximo algum documento da CNBB ou de algum bispo que esteja em conformidade com o ensinamento da Igreja (é, vocês entenderam, análise de conjuntura não vale) ou que esteja dentro das atribuições do bispo, previstas no Código de Direito Canônico. Mas, claro, como o documento pede um negócio altamente popular (a beatificação de um bispo, digamos, alinhado com o que os padres do ENP pensam), o Pernambuco.com embarca no oba-oba e já promove o Partido Comun... quer dizer, Conselho Nacional de Presbíteros a instância oficial da Igreja Católica. Felizmente, estão muito enganados.

Além do mais, os padres estão gastando saliva e tinta de impressora à toa. Afinal, como a própria matéria mostra, mais lá pra baixo:
Bispo de Palmares, dom Genival lembrou que o processo de beatificação começa na diocese
Ou seja, ninguém precisa pedir nada ao Vaticano, até porque lá na Congregação para as Causas dos Santos é capaz de responderem "voltem aqui quando acabar a fase diocesana do processo". Afinal, abrir um processo de beatificação é mais fácil do que parece. Não depende do Vaticano, depende só do ordinário da diocese onde viveu o candidato à santidade.

Aí que mora a ironia: o ordinário é o excelente dom José Cardoso Sobrinho, que está tendo um trabalho hercúleo para reconstruir tudo o que dom Helder destruiu enquanto foi arcebispo de Olinda e Recife. Meu palpite? Dom José pode até topar abrir o processo, mas haverá uma noite fria no inferno (sempre ele) antes que o cardeal Saraiva Martins (ou seu sucessor na Congregação para as Causas dos Santos) coloque dom Helder Câmara na lista dos bem-aventurados.

(Sinceramente, vocês achavam mesmo que eu ia colocar uma foto de dom Helder? Nem morto! Em vez disso, fiquem com o cardeal Saraiva Martins, quando veio a Belo Horizonte para a beatificação do padre Eustáquio. Fonte: http://www.patrocinio.mg.gov.br/ant6.htm - foto de Marco Aurélio Caldeira)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Não são apenas os jornalistas que não sabem o que escrevem...

... os padres também. Pelo menos os padres que aprovaram aquela carta asquerosa ao fim do tal Encontro Nacional de Presbíteros. Se você tem estômago, leia aqui o documento. Reparem que não aparecem as palavras "missa", "eucaristia" e "sacramentos" em nenhum momento. Em vez disso, os padres ficam fazendo pregação comunista e defendendo bispos suicidas como dom Cappio. Quando a carta fala de "Igreja", é para denunciar "estruturas ultrapassadas" (leia-se "a tirania de Roma") e pedir uma "Igreja" que faça a revolução socialista, em vez de levar Deus ao povo. A carta é realmente um lixo. Para esses padres de passeata, fica o aviso das parábolas: a quem mais se deu, mais será cobrado.


(Já que estamos repetidamente falando do inferno, mais uma gravura pra vocês, agora de William Blake: é o lago (ou rio) Cocito, o nono círculo do inferno dantesco, onde ficam congelados os traidores. Deu pra entender a mensagem?)

O Estado de S. Paulo deu matéria sobre o assunto. José Maria Mayrink tem mais anos de cobertura da Igreja do que eu tenho de vida. Eu o entrevistei para meu TCC quando ele ainda trabalhava no Jornal do Brasil. Agora está no Estadão.

Padres sugerem o fim do celibato

Matéria corretíssima; inclusive Mayrink já antecipa que essa babaquice de pedir a Roma que mude várias coisas não vai dar em nada, porque tanto o Papa quanto dom Claudio já afirmaram que a Igreja não vai alterar coisa nenhuma.

O único deslize é ter chamado os bispos de uma certa região (quando se escolhe um novo bispo, consulta-se os bispos das dioceses vizinhas) de "titulares", quando o termo correto é "ordinários". Então vai uma breve explicação:

Teoricamente, todo bispo precisa estar à frente de uma diocese (exceto os aposentados, ou "eméritos"). Mas, na prática, nem todo bispo apita desse jeito: há, por exemplo, bispos auxiliares; ou bispos que exercem cargos dentro da administração da Igreja. Então a Igreja dá a esses bispos o título (daí o termo "titulares") de uma diocese que já existiu em priscas eras, mas que não existe hoje, por razões quaisquer.

Por exemplo, o núncio apostólico no Brasil, dom Lorenzo Baldisseri, é arcebispo titular de Diocleciana; já o administrador apostólico da Administração Apostólica São João Maria Vianney, dom Fernando Rifan, é bispo titular de Cedamusa. Um site legal para se fazer esse tipo de pesquisa é o Catholic Hierarchy. Lá, por exemplo, descobriremos que Diocleciana fica mais ou menos onde hoje é Skopje, a capital da Macedônia; e Cedamusa fica em algum ponto da Mauritânia, na África. Pronto, sua cota de cultura inútil do dia foi preenchida.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Esqueçam CSI ou Cold Case, o negócio é a autópsia de Jesus

Prometi e vou entregar. A IstoÉ dessa semana traz na capa um Cristo crucificado e anuncia em letras garrafais a, hm, "autópsia" de Jesus. Claro que é uma figura de linguagem (pelo menos assim espero), porque até onde eu sei o corpo de Jesus está glorioso no céu (exceto para os charlatães daquele archeo-porn* chamado O Sepulcro Esquecido de Jesus)

Em resumo, a reportagem tem como pretexto o lançamento, no Brasil, do livro de um legista americano chamado Frederick Zugibe, sobre a causa da morte de Jesus - claro, ele morreu crucificado, mas como morre uma pessoa crucificada, do ponto de vista médico? Então, a reportagem está aqui:

Como morreu Jesus

Li tudo e não vi nada ali que desabonasse a pesquisa do legista, parece uma coisa super bem feita, com critérios bem científicos. Mas a repórter, Natália Rangel, resolveu dar uma exagerada na coisa. Ela começa o texto assim:

De duas, uma: sempre que a ciência se dispõe a estudar as circunstâncias da morte de Jesus Cristo, ou os pesquisadores enveredam pelo ateísmo e repetem conclusões preconcebidas ou se baseiam exclusivamente nos fundamentos teóricos dos textos bíblicos e não chegam a resultados práticos.
Bom, custava dar um exemplo desses dois extremos? E o pior é que a afirmação dramática da repórter sequer é verdadeira. Afinal, algumas décadas atrás Pierre Barbet já tinha feito uma análise da morte de Jesus no seu A Paixão Segundo o Cirurgião. Barbet será citado na reportagem, lá no finzinho, quando a repórter nos contar que suas conclusões serão refutadas por Zugibe, mas isso não invalida o fato de que, antes do americano, alguém foi lá e se dispôs a fazer uma pesquisa dessas.

A segunda forçada de barra vem logo depois:

Nunca faltaram, através dos séculos, hipóteses sobre a causa clínica de sua morte. Jesus morreu antes de ser suspenso na cruz? Morreu no momento em que lhe cravaram uma lança no coração? Morreu de infarto?

Bom, tirando essa última pergunta, para responder as outras duas não é preciso ser médico; na verdade, não é necessário nem ser alfabetizado. Qualquer analfabeto com bom senso que for à missa do Domingo de Ramos, ou ao ofício da Sexta-Feira Santa, vai ouvir o relato da Paixão e comprovar que, pregado na cruz, Jesus conversa com as pessoas. Gente morta não conversa, então Cristo só pode estar vivo. E, se o relato for de São João, ainda vai ouvir

(Jo 19)
33 Chegando, porém, a Jesus, como o vissem já morto, não lhe quebraram as pernas,
34 mas um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu sangue e água.
Ou seja, quando deram o golpe de lança, Jesus já estava morto.

Bom, na seqüência a reportagem vai descrevendo vários detalhes da morte de Jesus. Alguns sinceramente me deixaram com vontade de dizer "tá, agora conte algo que eu ainda não saiba", pois dados como o fato de Jesus ter carregado apenas a parte horizontal da cruz e ter sido pregado pelos pulsos, e não na palma das mãos, já são conhecidos por muita, mas muita gente. Mas quem sabe isso seja implicância minha - tem quem ainda não saiba.

Fora isso, só me resta comentar o box mostrando as "incoerências" do filme do Mel Gibson. Isso não é invenção da repórter tentando colocar o médico contra o ator/diretor, pois, segundo o texto, o próprio Zugibe critica Gibson. Mas algumas das tais "incoerências" têm resposta.

  • No caso de Jesus carregar a cruz inteira e ser pregado pelos pulsos (no filme), o próprio Gibson já havia dito, na época da estréia, que ele sabia muito bem que não tinha sido assim, mas havia preferido colocar no filme o que a iconografia cristã costumava representar.
  • No caso da pancada no olho, fiquei curioso para saber como o médico comprova que Jesus não levou esse golpe mostrado no filme. Verdade que não está no Evangelho, mas todo mundo sabe que a Bíblia não foi a única fonte de Mel Gibson para montar o filme.
  • Quanto ao "descanso para os pés" de Jesus, que aparece no filme, diz a reportagem que, segundo Zugibe, é uma invenção de artistas do século passado. Sei. Olhem a infografia da página 81. Tem descanso para pés. E a pintura é um afresco de Fra Angelico (que certamente não viveu no século passado, nem no retrasado). Vejam agora esse Cristo na Cruz de Diego Velázquez:



    Tem descanso para pés. E Velázquez também não é um pintor contemporâneo.

    Voltando ainda mais no tempo, uma crucifixão retratada por Giotto:



    Olha só o descanso para pés de novo. E Giotto é ainda mais antigo que Fra Angelico.

    E, a parte religiosa da matéria até que não estava mal. O problema é que eu também conheço um bocadinho de arte...

    * "archeo-porn" foi a expressão usada por um arqueólogo para descrever o documentário do Simcha Jacobovici. O arqueólogo disse isso na cara do cineasta num debate promovido pelo próprio Discovery Channel, exibido logo após uma sessão do documentário. O cara simplesmente detonou várias das premissas do trabalho, e o Jacobovici olhando com cara de mané, sem saber o que responder. Foi um momento impagável.
  • Hoje à noite tem mais

    Antes que me perguntem: já estou com uma cópia da matéria de capa da IstoÉ dessa semana. Daqui a algumas horas faço uma avaliação.

    O Jesus histórico fazendo estrago

    Folheando a edição de sábado (16/2) do Jornal da Tarde, descobri a seguinte notinha com foto:
    Dinamarca
    Madrugada de violência

    Copenhague e outras cidades foram alvo, na madrugada de ontem, de vários ataques incendiários que a polícia atribuiu a jovens que protestavam violentamente contra a publicação de charges de Maomé (profeta dos muçulmanos equivalente a Jesus, para os cristãos) (...)
    Mas o que é isso? Maomé equivalente a Jesus? Nessa o redator internacional do JT pisou na bola feio. Tudo bem que, ultimamente, algumas correntes tresloucadas adeptas dessa palhaçada de "Jesus histórico" têm tentado a todo custo negar a divindade de Jesus, mas pergunte a qualquer cristão bem formado e a qualquer muçulmano bem formado se Jesus e Maomé são "equivalentes". Não são. Para os cristãos, Jesus é o próprio Deus feito homem, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Para os muçulmanos, Maomé é o maior de todos os profetas, mas não é Deus encarnado. Simples assim.

    Se estamos precisando dar esse tipo de explicação básica no blog, é porque a situação está feia mesmo.

    domingo, 17 de fevereiro de 2008

    E o inferno chegou à Veja; ou vice-versa, sei lá

    Quem me conhece bem sabe que eu sou leitor diário do blog do Reinaldo Azevedo, da Veja; e que gosto do Diogo Mainardi quando ele bate no Lula e no PT (mas não quando fala de religião); e que eu acho o André Petry um anti-católico de carteirinha. Mas hoje não vou comentar artigos de nenhum desses três, e sim uma reportagem publicada na edição que está nas bancas, datada de, vá lá, quarta-feira que vem. Adivinhem o tema?

    O fogo eterno queima mesmo
    (link só funciona para assinantes ou para quem comprou a revista em questão. Quem me passou o texto foi o Wagner Moura)

    Segundo o Reinaldo Azevedo, o texto é do Jerônimo Teixeira. Temo que o repórter tenha comprado a balela do El País (endossada pelo Terra) que indicava "contradições" entre os discursos de Bento XVI e João Paulo II sobre o inferno. A Veja não chega a colocar as coisas nesses termos, mas uma passagenzinha me chamou a atenção:

    O papa anterior, João Paulo II, amainou um tanto a noção de inferno, definindo-o como um lugar em que Deus está ausente.
    Poliana diria: "pelo menos a Veja afirmou que, segundo João Paulo II, o inferno ainda é um lugar." Sim, Poliana, é verdade, podia mesmo ter sido pior. Mas aqui temos duas coisas a observar:

    1. João Paulo II não amainou coisíssima nenhuma! Minha impressão é de que o repórter não chegou a medir a dimensão do que é passar a eternidade na ausência de Deus. Admito que talvez os castigos no estilo Bosch (já "citado" neste blog) ou Dante chamem mais a atenção e pareçam ser, digamos, a "essência" do inferno.

    (O sexto círculo do inferno dantesco, onde estão os hereges, na visão de Gustav Dore; tem mais aqui)

    Acontece que, realmente, o que caracteriza o inferno é justamente a ausência de Deus, ou o que se chama de "pena de dano". O Catecismo aprovado por João Paulo II (o Papa que, segundo a reportagem, deu uma amaciada no inferno) fala do assunto nos pontos 1033 a 1037. No 1035 diz claramente que o principal castigo do inferno é a ausência de Deus - e isso é muito pior que passar a eternidade sendo grelhado ou recebendo aqueles castigos meio escatológicos (nos dois sentidos, talvez?) dos quadros do Bosch. Além do mais, o Catecismo ainda menciona, no mesmo ponto 1035, o "fogo eterno", com uma nota de rodapé que remete a vários pontos do Denzinger que ressaltam o lance das penas. Como eu tenho o Denzinger em casa, fui conferir:

  • no 858 (II Concílio de Lyon, 4.ª sessão, 1274), afirma-se que as penas são "diferenciadas";
  • no 1002 (constituição Benedictus Deus, de Bento XII, 1336), fala-se de "suplícios infernais".
    (tem outros, mas esses são os que falam das punições que chamamos "pena de sentido")

    Quer dizer, o "Papa que suavizou o inferno" aprovou um Catecismo que fala dos suplícios e ainda cita ensinamentos anteriores que confirmam o fato? Esquisito, não é?

    2. Agora que já definimos "pena de dano" e "pena de sentido", não me parece que Bento XVI tenha afirmado que essa é mais importante que aquela. O que o Papa atual disse foi que o inferno existe, e isso não se pode perder de vista. Mas não colocou a ênfase nos tormentos como mais importantes que o fato de o condenado ficar eternamente longe de Deus.

    De qualquer maneira, considerando que tanto João Paulo II quanto Bento XVI não varreram pra debaixo do tapete a existência real do inferno, a conclusão que se tira é de que o seguinte trecho da reportagem:

    Entre os fiéis das igrejas tradicionais, as retribuições da vida eterna se tornaram um tanto abstratas, um recurso didático para incutir princípios morais nas crianças. É como se as igrejas mais antigas houvessem se secularizado, relegando idéias que antes inspiravam temor (o inferno) e esperança (o céu) para o plano das figuras de linguagem.
    pode até se aplicar a outras denominações, mas certamente não à Igreja Católica, que sempre reafirmou a existência do inferno, com tudo que lhe é de direito. A Igreja nunca tratou o inferno como "figura de linguagem". Talvez alguns padres prefiram pensar assim, e passem adiante seu ponto de vista (eu ouvi pelo menos um caso desses). Quanto a eles, eu só espero que não acabem recebendo o desmentido do pior jeito...
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