terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Cuidado, ou o Santo Ofício vai te pegar!

A pedido de um comentador anônimo do blog (nada contra, mas não seria melhor mostrar pelo menos o nome?), dou umas palavrinhas sobre o texto O bispo intrometido, que saiu na IstoÉ da semana passada.

Dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife e exemplo de sucessor dos Apóstolos. (Fonte: www.arautos.org.br)

Que o texto é de uma babaquice sem tamanho, repete aquele mantra de "Estado laico" quando na verdade quer mais é que a Igreja fique calada, bom, isso é óbvio. Mas o objetivo desse blog não é ficar rebatendo cada acusação feita à Igreja, até porque para isso temos gente muito boa por aí (em breve prometo colocar uma lista de links bons para vocês). O objetivo do blog é mostrar que muitos jornalistas, quando resolvem falar da Igreja, não têm a menor idéia do que estão falando. Por que as redações fazem questão de ter um especialista em ciência, um especialista em meio ambiente, um especialista em Justiça... mas não um especialista em religião?

Nesse aspecto, o texto da IstoÉ não chega a ser totalmente mentiroso. De fato, dom José (que Deus o mantenha na ativa por muito tempo) é um bispo zeloso, não é omisso, faz o que tem que fazer e fala o que deve falar. Agora, no texto tem duas coisas que valem a pena comentar, dentro do escopo do blog:

Recentemente, depois de consultar o arcebispo, a Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício) condenou o padre Edwaldo Gomes a três meses de suspensão
A imprensa tem essa mania besta de lembrar que a Congregação para a Doutrina da Fé um dia se chamou "Santo Ofício". Vejam esse texto da EFE (tinha que ser) de 30 de janeiro:

Papa afirma que fecundação in vitro infringe dignidade humana

Aqui, o termo "Santo Ofício" é repetido duas vezes logo no começo.

O problema é que essa mudança de nome foi feita em 1965! Qual a utilidade de continuar mencionando isso? Será que alguém ainda pode confundir os nomes? Aqui no Paraná, o Cefet virou UTFPR não faz mais de quatro anos. Muita gente ainda chama a universidade de Cefet. Então até faz sentido, de vez em quando, escrever "a UTFPR (ex-Cefet) faz vestibular hoje". Mas, pelamordedeus, para que ficar recordando o antigo nome de algo que tem uma mesma denominação há mais de 40 anos? É pra fazer a associação com a Inquisição? Então deixem de besteira e digam de uma vez "ex-Inquisição" (ou "ex-Congregação para a Inquisição Universal", que era o nome oficial até 1908).

A outra babaquice da IstoÉ que merece comentário segue aqui:

Na lógica escolástica do arcebispo, a pílula estimula a prática do sexo e até mesmo o aborto. "É um pecado grave. Quem pratica o aborto está matando, destruindo a vida de pessoas inocentes. A Igreja Católica pune essa prática com a excomunhão", disse o prelado, como se vivesse nos tempos de Torquemada, o grande inquisidor espanhol do século XV.
Primeiro, como assim "lógica escolástica"? O redator da revista resolveu lascar ali um adjetivo de cunho religioso sem nem saber direito o que significa, suponho. Porque a "lógica" de dom Cardoso não é nem escolástica, nem patrística, nem nada - é simplesmente lógica. Ou vai me dizer que a grande oferta de contracepção/aborto de emergência não deixa a molecada mais irresponsável na hora de pular carnaval?

Pior: que a pílula causa aborto não é questão de raciocínio ou opinião - é um fato que aparece até na bula!

E, por último, não podia faltar uma referência à Inquisição. Pelo jeito, o redator de IstoÉ deve achar que todo mundo treme só de ouvir o nome do Torquemada. Alguém precisa avisá-lo de que a Igreja sempre condenou firmemente o aborto. Então, a afirmação de dom Cardoso vale para os tempos de Torquemada do mesmo jeito como vale para os tempos de São Pedro, de São Silvestre I, de São Francisco de Assis, de Santo Inácio de Loyola, de São Filipe Néri, de Pio IX, de João XXIII, da Madre Teresa de Calcutá e de Bento XVI, e continuará valendo até o fim dos tempos. Tentar associar a doutrina imutável da Igreja a um personagem histórico impopular é, no mínimo, burrice. No máximo, bom, o horário não me permite dizer.

8 comentários:

Johny disse...

Meudeus ! Faz tempo que não leio Época. Não sabia que a revista estava desse jeito ... estão ombro-a-ombro com os textos da Folha.

Por falar nela, dê uma olhada na entrevista que a Folha Online fez com o presidente do Timor Leste. Não sei se eu é que sou muito disconfiado, mas me pareceu que o entrevistador forçou a barra num assunto (envolvendo a Igreja) que parece-me pouco relevante diante da situação do país: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u371451.shtml

Rodrigo disse...

Ótimo!!!
Esa coisa do ex-Santo Ofício realmente é de matar. Uma babaquice atrás da outra. Não compreendem nada de história ou teologia e querem dar pitaco de tudo...tem que ter saco, viu!!! Aff!

Eduardo Araújo disse...

A Inquisição virou mesmo o bordão por excelência para desqualificar uma instituição religiosa com uma fase de sua história.

Surpreso fico é não terem também mencionado o caso Galileu, outro "argumento" caro à imbecilidade coletiva anti-religiosa. Ainda mais que a estupidez dessa gente reinvidica autoridade de representante da ciência (só se forem do cientificismo, isso sim), para desfiar o rosário de asneiras, como associar aborto e progresso científico.

Evelyn Mayer de Almeida disse...

Oi, Menino =)

Não sabia que vc tinha blog... como não me disse antes?


Eu gostaria mto de tê-lo na minha lista de indicações do meu blog. Posso?

Deus abençoe! tchau =)

Sandra Gonçalves disse...

O pior de tudo é que mesmo veículos que um dia eu já considerei confiáveis, como o Estadão, agora compactuam com essa desinformação ignorante...
O jeito é ser muito, muito crítico na hora da leitura.

Decor disse...

Acabei de conhecer o blog e gostei muito. Parabéns pelo trabalho. Conte com minha leitura e orações.

Andrea disse...

Parabéns pelo blog! Acabei de conhecer e estou gostando muito!

Fique com Deus!

H K Merton disse...

Parabéns!

Mais do que um blog, este é um instrumento de informação ao público.

Vamos fazer a nossa parte e mostrar que existimos, que pensamos, que temos opinião própria e que não aceitaremos continuar sendo maciçamente desrespeitados por uma mídia ingorante, inconseqüente e difamadora, que trata de assuntos sérios como a fé alheia baseada apenas em "achismos" e opiniões (preconceituosas) pessoais.

Continue com o ótimo trabalho e que Deus o abençoe.