quarta-feira, 2 de julho de 2008

Quero que você me aqueça neste inverno...

Dom Clemente Isnard, bispo emérito de Nova Friburgo (onde hoje está dom Rafael Llano Cifuentes - para vermos como as coisas melhoram), acaba de nos presentear com um livro que vai nos fazer muito bem aqui em Curitiba, onde faz um frio de cortar a alma e bom combustível de lareira é sempre bem-vindo.



Pois bem, como costuma acontecer, já começaram a fazer a farra na grande imprensa. Até semana passada, a palhaçada estava restrita ao Adital, uma agência de notícias socialista travestida de católica. Mas agora O Globo Online resolveu entrar na roda.

Bispo aposentado defende mudança na escolha de líderes, fim do celibato obrigatório, mais poder para mulheres e camisinha contra Aids

E lá vamos nós!

Em meio à campanha da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) contra a corrupção na política
Cleide Carvalho, Cleide Carvalho... CNBB é Conferência, e não Confederação.

Depois vem a entrevista. Sério: acredito que seja o pingue-pongue (é como chamamos esse formato de entrevista em que se coloca a pergunta e a resposta) mais mal-editado que já vi na vida. Quer dizer, acho que nem editado foi, a repórter deve ter dado um Ctrl-C Ctrl-V no e-mail e colou no publicador do O Globo Online. Custava ter juntado várias das frases do bispo sobre um mesmo tema, e colocar tudo dentro de uma única pergunta? É assim que se faz edição...

Aí a repórter faz umas perguntas do tipo

O GLOBO ONLINE- É verdade que São Pedro tinha sogra?
Cleide querida, se você tivesse olhado direito a Bíblia veria que lá diz, com todas as letras, que São Pedro tinha sogra. Não precisava ter feito essa pergunta ao bispo.

É verdade que, infelizmente, a maior parte das bobagens dessa entrevista vem do bispo, e não da repórter. Mas um conhecimento um pouco maior da doutrina católica, ou às vezes até mesmo um pouco de sagacidade, teriam servido para colocar dom Clemente na parede. Quer dizer, isso se a repórter não quis apenas servir de escada para o "bispo que desafia a Igreja Católica". Percebam que ele se esquiva em várias perguntas. Mas, em outras, ele abre a guarda e podia muito bem ter levado um direto.

Por exemplo, quando ele diz que "comentadores" não acreditam que seja infalível a declaração de João Paulo II na Ordinatio Sacerdotalis, segundo a qual mulheres não podem ser ordenadas. Custava perguntar "que comentadores são esses?"

Ou quando o bispo conta que, quando ele apitava em Nova Friburgo, deixava mulheres celebrarem batizados e casamentos. No caso do batismo, infelizmente a CNBB instituiu, lá na década de 70, um negócio chamado "ministro extraordinário do batismo". Mas, ainda assim, eles só deveriam agir em caso de ausência do ministro ordinário, que é o bispo, padre ou diácono. Agora, o cânon 1108 diz, sobre o matrimônio:

Somente são válidos os matrimônios contraídos perante o Ordinário local ou o pároco, ou um sacerdote ou diácono delegado por qualquer um dos dois como assistente (...)
Existe uma observação ao cânon 1112 (Onde faltam sacerdotes e diáconos, o Bispo diocesano, com o prévio voto favorável da conferência dos bispos e obtida a licença da Santa Sé, pode delegar leigos para assistirem aos matrimônios) que diz o seguinte:

A possível delegação a leigos está regulamentada pela Instrução da Sagrada Congregação dos Sacramentos, de 15 de maio de 1974 (...). É necessário que o Bispo diocesano obtenha as duas coisas: voto favorável da Conferência Episcopal e licença expressa da Santa Sé. Os leigos designados (sempre por um prazo fixo) têm um papel supletório, quer dizer, só atual licitamente quando falta um ministro ordenado. Seria uma deturpação da finalidade dessa concessão confiar normalmente a celebração do matrimônio a esses leigos. Além disso, corre-se o perigo de diminuir o senso do caráter sagrado do matrimônio.
Basta ler a entrevista de dom Clemente para saber que não é esse o caso. Não faltavam ministros ordenados, mas mesmo assim a freirinha ia lá, porque os casais preferiam que fosse ela. Sorte desses casais que seu matrimônio, embora ilícito, ainda seja válido. Mas a repórter, se tivesse um pouco de senso crítico, poderia ter achado estrando esse negócio da freira celebrar casamento e correr atrás de base legal para isso, não poderia?

Enfim, sei que ler essa entrevista de cabo a rabo significa perder uns 10 minutos da sua vida que jamais voltarão. Para comentá-la no blog devo ter perdido o dobro ou o triplo disso, infelizmente. Mas aqui podemos ver o que a infidelidade de um bispo e a incompetência (ou cumplicidade) de um repórter podem fazer...

5 comentários:

Captare disse...

Pois é...
Ainda bem que D. Clemente está aposentado, senão o estrago poderia ser bem maior...

Vinnnie disse...

A mim basta ler as citações em destaque. É uma pena ler estas coisas, quando alguns bispos teimam em fazer as vezes do Judas. Rezemos pelo clero! A geração TL ainda agoniza.

Wagner Moura disse...

Eu fico imaginando esse senhor velhinho rindo sozinho enquanto tira a poeira da máquina de escrever de estimação: "agora vão ter que me engolir". Acho que mais que ideológico, deve ser uma questão fisiológica... Um desejo natural de deixar um testamento, alguma coisa que perpetue uma experiência, um pensamento... E eles levam tão a sério. Sei lá... Depois que li os seus comentários, cantei a segunda parte da canção título do texto.:D Deus me perdoe... Mas tem alma que pede! :D Abração. Quero uma camisa com o nome do seu blog.

Anônimo disse...

Num péssimo VHS da verbofilmes intitulado "A Ceia do Senhor" e que pretende dar orientações de como se realiza a tal liturgia "inculturada", Dom Isnard também deu uma entrevistazinha ao vivo. Que lástima ! O homem tinha uma inveja mal-disfarçada pelo prefeito da congregação para o Culto Divino, na época um africano, e desceu-lhe a lenha sem escrúpulo algum, demonstrando qualquer falta de equilíbrio, caridade ou sabedoria. Talvez alguém ainda tenha esse VHS (ou agora DVD)

Matheus Cajaíba disse...

Você sabe que não perdeu seu tempo, prezado amigo. Para combater o inimigo, temos que conhecer seus métodos... E isso realmente demanda tempo.

Um abraço