segunda-feira, 2 de março de 2009

Rótulos enganam

Quando Bento XVI foi eleito, entrevistei o teólogo Antônio Marchionni, que me disse uma coisa muito interessante: "não existe isso de 'conservador' ou 'liberal' na Igreja; existe é quem é fiel à doutrina e quem não é fiel à doutrina". Mesmo assim, os jornais continuam usando largamente os adjetivos. Bento XVI, o cardeal Arinze, o cardeal Pell, o cardeal Cañizares, não são meramente fiéis à doutrina: são "conservadores". Já o cardeal Martini, dom Tomás Balduíno, dom Pedro Casaldáliga, Hans Küng, não são hereges ou quase isso: são "liberais", como se fosse possível negar a doutrina em 11 de cada 10 palavras ditas e ainda assim permanecer católico. E, consequentemente, os adjetivos não são usados apenas para pessoas. O Opus Dei, por exemplo, é rotulado de "ultraconservador". Nunca vi ninguém explicar exatamente por que a Obra mereceria o "ultra", coisa que não fazem nem com o Papa. Paciência.

Mas agora Bento XVI pregou uma peça na mídia. Em janeiro ele trouxe para os holofotes a Sociedade São Pio X. "Minha nossa, os caras rezam missa em latim, criticam o Vaticano II, andam todos de batina. Como classificamos esses sujeitos?", devem ter pensado nas redações. E agora contam-se aos montes as reportagens que chamam a SSPX de "ultraconservadora". Mas peraí, "ultraconservador" não é o Opus Dei? E olha que os padres do Opus Dei celebram só no rito novo, não criticam o Vaticano II... será que agora a Obra será apenas "superconservadora", em vez de "ultra"?

Eis a prova definitiva de que esse tipo de rótulo não tem a menor conexão com a realidade...

3 comentários:

Vinícius disse...

Eu já vi numa revista que a RCC era ultraconservadora. Como não faz muita diferença, eles poderiam passar a usar qualquer prefixo que ficaria até bonitinho. Veja:

pentaconservadores,megaconservadores, anticonservadores, megaloconservadores, etc.

Está cada vez mais divertido acampanhar notícias nos meios de comunicação.

Marcelo Britto disse...

Não tem a ver com o post, mas gostaria de sugerir algum post sobre as bobagens que estão falando sobre a excomunhão das pessoas que conduziram o aborto da menina de 9 anos estuprada pelo padrasto.
A imprensa diz que a Igreja excomungou as pessoas, quando na verdade esta excomunhão é automática, e não provém da vontade pessoal de um bispo.

Rodrigo disse...

Entrei em uma discussão com um colega uma vez exatamente por causa disso. Ao falar dos grupos da Igreja ele colocava todo mundo num mesmo saco semântico: opus dei, CL, arautos...todo munto "tradicionalista". Escrevi um artigo para uma revista teológica tentando colocar os pingos nos 'is'...não sei se consegui...
(http://www.pucminas.br/imagedb/documento/DOC_DSC_NOME_ARQUI20080505144239.pdf)
ABRAÇO