quinta-feira, 9 de abril de 2009

Precisa-se de relógio e de calendário

Comentei faz algumas horas com o Alexandre Zabot que só existe um nome para essa enxurrada de matérias esquisitas que antecedem os grandes dias do catolicismo: é oportunismo puro. Chega a Páscoa, e começam as matérias sobre evangelhos de Judas, que Jesus não foi isso, que não fez aquilo. Perto do Natal ou do dia de Nossa Senhora Aparecida, é Maria isso, Maria aquilo. Pois bem, agora tem um "especialista" falando coisas para a EFE (cuja reputação já é bem conhecida dos leitores do blog).

Pesquisador levanta dúvidas sobre idade de Jesus ao morrer

Sinceramente, eu acho que a questão das datas é o de menos, se foi em 33, em 39... sabemos que existe muita imprecisão nessas contagens.

Mas aí vem o tal especialista Antonio Piñero (aliás, que nomezinho pretensioso o do livro dele, não?) e me diz o seguinte:
"É minha opinião, mas acho que é mais provável que Jesus tenha sido crucificado na quinta-feira, pela simples razão de que, se foi crucificado às 15h de sexta-feira, teria morrido caída a tarde. Isso, para os judeus é o novo dia, ou seja, sábado (Shabat), dia de descanso", argumenta Piñero. "A crucificação em dia de descanso teria sido uma profanação monumental. É mais possível que não tenha sido crucificado na sexta-feira, mas na quinta-feira."
Bom, aí basta ler os Evangelhos, né?

São Mateus, 27:

45. Desde a hora sexta até a nona, cobriu-se toda a terra de trevas.
46. Próximo da hora nona, Jesus exclamou em voz forte: Eli, Eli, lammá sabactáni? - o que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?
47. A estas palavras, alguns dos que lá estavam diziam: Ele chama por Elias.
48. Imediatamente um deles tomou uma esponja, embebeu-a em vinagre e apresentou-lha na ponta de uma vara para que bebesse.
49. Os outros diziam: Deixa! Vejamos se Elias virá socorrê-lo.
50. Jesus de novo lançou um grande brado, e entregou a alma.
São Marcos, 15:

25. Era a hora terceira quando o crucificaram.
33. Desde a hora sexta até a hora nona, houve trevas por toda a terra.
34. E à hora nona Jesus bradou em alta voz: Elói, Elói, lammá sabactáni?, que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?
35. Ouvindo isto, alguns dos circunstantes diziam: Ele chama por Elias!
36. Um deles correu e ensopou uma esponja em vinagre e, pondo-a na ponta de uma vara, deu-lho para beber, dizendo: Deixai, vejamos se Elias vem tirá-lo.
37. Jesus deu um grande brado e expirou.
São Lucas, 23

44. Era quase à hora sexta e em toda a terra houve trevas até a hora nona.
45. Escureceu-se o sol e o véu do templo rasgou-se pelo meio.
46. Jesus deu então um grande brado e disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, dizendo isso, expirou.
Apenas São João não dá uma referência de hora para a morte de Cristo, mas pelos outros evangelhos fica claro como água que 15 horas (a hora nona) não é o momento em que Jesus foi crucificado, mas o momento em que ele morreu.

Mas São João, no capítulo 19, dá outra informação:


31. Os judeus temeram que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque já era a Preparação e esse sábado era particularmente solene. Rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados.
E tem São Lucas, 23 de novo:


50. Havia um homem, por nome José, membro do conselho, homem reto e justo.
51. Ele não havia concordado com a decisão dos outros nem com os atos deles. Originário de Arimatéia, cidade da Judéia, esperava ele o Reino de Deus.
52. Foi ter com Pilatos e lhe pediu o corpo de Jesus.
53. Ele o desceu da cruz, envolveu-o num pano de linho e colocou-o num sepulcro, escavado na rocha, onde ainda ninguém havia sido depositado.
54. Era o dia da Preparação e já ia principiar o sábado.
Ou seja, se quando Jesus foi deposto da cruz e sepultado já ia começar o sábado (para os judeus, a virada do dia é no pôr-do-sol), fica óbvio que Cristo foi crucificado numa sexta-feira.

Alguém, por favor, arrume um relógio e um calendário para o sr. Piñero...

4 comentários:

Ricardo disse...

Optimo post sobre a verdade, em http://www.companhiadosfilosofos.blogspot.com/

Lucetta Scaraffia, “A importância da verdade”

1. Certamente a característica da missão de Bento XVI é a verdade.

http://www.companhiadosfilosofos.blogspot.com/

Demerval Júnior disse...

Pois é...

Mais um sacripanta para a coleção dos inimigos umilhados, coitado...

O pior é saber que vão acreditar nesse sujeitinho ignóbil apenas porque foi publicada uma notíciazinha estreita como essa!

Ah! Se todos lessem seus artigos, meu irmão... Bom seria!

Feliz Páscoa!

Eduardo Araújo disse...

A ânsia de sujeitos como esse Piñero é tal que os leva a erros tão primários e grotescos como o mostrado no post.

De fato, coaduna-se à perfeição com os Discoveries da vida. Falar nisso, o canal anunciou a sua saraivada habitual anticristã, incluindo o cardápio um programa sobre os evangelhos perdidos. Num dos trailers, afirma que as multidões adoravam sua leitura e que Maria Madalena seria uma líder! Quanta ciência e pesquisa históricas ... Faltando!

Mas o pior foi mudar para a Tv Cultura e ver um assomo de esquizofrenia antirreligiosa do mais péssimo gabarito, com o aproveitamento, até, das "piadas" (?) do South Park e tiradas já bem conhecidas, como a de que "a religião deve se modernizar". Tudo na Semana Santa, como bem apetece a essa turminha.

O Demerval está certo. Infelizmente, muitos serão capturadas nessas armadilhas de pretensos sábios, de supostos pesquisadores "científicos" da Bíblia e dos sarcásticos zombeteiros.

Abraços e Feliz Páscoa!

Ronnam disse...

Cara, como as pessoas se preocupam com grandes coisas e deixam as pequenas de lado.
O cara se preocupou tanto em dizer que era numa quinta que, "através de seus estudos", que esqueceu de procurar na bíblia que demonstrava não só o dia como a hora.
hahahahahaha.